Segunda-feira, 28 de Setembro de 2009
Viver para a uva e colher o vinho*
Os trabalhadores nas vindimas não sabem onde mora a poesia do vinho. Mas estão certos de que sem as suas mãos agéis na apanha da uva não há néctar dos deuses - que eles chamam mesmo de vinhaça
Mulheres e homens apressam o passo nos carreiros, despem as cepas sem olhar para os cachos, sem tratamentos diferenciados para as uvas tintas ou brancas, não pensam nas melhores combinações entre vinho e o menu, mas as onze da manhã o estômago dá o alerta. Há sol, mas é o medo que venha a chuva - e encontre as vinhas desprevenidas, encharque as raízes e estas conduzam água para os bagos – que rege os dias dos agricultores. As 14 mulheres e os dez homens que apanham uva em Fernando Pó não estão a fazer enoturismo numa quinta especializada. A maioria está entre os 50 e 70 e muitos anos, estão a repetir a faina das gerações que os precederam. Se a habilidade de apanhar uvas estivesse definida num caractere transmissível, o seu ADN portaria o ofício das vindimas. Neste ano a colheita largou às oito da manhã do dia 19 de Agosto e deve seguir por mais nove ou dez dias. São responsáveis directos pelos quatro milhões de litros de vinho que a Casa Ermelinda Freitas estima produzir nesta temporada. Quem os vê trabalhar, cansados mas inquietos, não hesita em suspeitar que a poesia do vinho aloje-se nas rugas do rosto, nas dobras da pele das mãos e nas rachas das unhas dos apanhadores de uva.
Maria Fernanda Gregório tem 64 anos, não lembra ao certo quantos meses tinha quando da sua estréia na vinha. Ouviu assim de contar que primeiro ficava no cesto da bicicleta, e depois dessa fase já se recorda de arrastar-se pelo carreiro. “Se calhar dei os primeiros passos na vinha. A minha avó levava-me para o campo, depois trazia-me a minha mãe. E assim que tive idade, começei também eu a apanhar uva”. Os trabalhadores da vindima definem-se como agricultores, a “idade certa” para começar a trabalhar varia entre os oito e os 11 anos, os rapazes podem ir mais cedo para o campo. Marina Fernandes, 66 anos, meteu a cara na vinha aos 11 anos. Faz parte das primeiras gerações de mulheres “autorizadas a descaldeirar”, que trata-se de nivelar o solo ao redor da cepa com a enxada e retirar as ervas. “Quando os homens começaram a ir para fora, fazer trabalhos que davam mais dinheiro, como as obras, as mulheres começaram a descaldeirar. Mas já não se faz isso, é raro ver uma vinha descaldeirada”.
O marido de Marina vem logo atrás, no carreiro oposto arrasta a sua tilha até encher, o que rende uns 20 quilos. “Eu não sei ler nem escrever e na região não há nada para se fazer. No Verão apanhamos a uva, no Inverno fazemos a poda e a cura das cepas. É um trabalho pesado, chega-se a noite exausto, com o corpo a pedir cama”, conta sem descurar da colheita José de Oliveira Fernanes, 75 anos. O grupo de 24 agricultores compõem a equipa de campo da Casa Ermelinda Freitas, o que significa que há trabalho durante oito ou nove meses por ano. Em Agosto e Setembro, no máximo até Outubro, faz-se a apanha da uva. Entre Novembro e Março, com “a ajuda de Deus” Maio, trabalham na poda e na cura das cepas. Depois são demitidos e vão para o seguro desemprego. “É a sazonalidade da nossa vida, trabalhamos durante oito meses e ficamos desempregados outros quatro. Nessa altura, se conseguirmos, fazemos outros trabalhos na agricultura, cuidamos da casa e da horta”, explica Maria Lucinda, 54 anos. Durante a poda, no Inverno, os trabalhadores ganham 28 euros, com os encargos sociais por conta da patroa, por um dia que começa às oito horas da manhã e termina as cinco da tarde. No Verão são 33 euros por dia, o pagamento é feito ao fim de cada semana.
Ema, 39 anos, nasceu em Agualva de Cima, onde vive. De casa leva 10 minutos para chegar ao ponto de encontro onde apanha a carrinha com o feitor e os colegas. Nas terras em que colhe a uva o clima é do tipo mediterrânico continental, sendo influenciado pelas bacias do Tejo e do Sado e pela proximidade do mar. O solo é de areias e arenitos. “Por cima do corpo usamos uma bata que vem até a altura do rabo. Por cima uma camisa bem fechada, para proteger os braços. Calças, meias e sapatilhas. O chapéu é para aliviar do sol, e as luvas para não magoar as mãos ou manchá-las. Mesmo assim, toda tapada, chego a casa com areia no corpo inteiro, a poeira gruda, faz parte de nós. Ei, acho que perdi a minha camarada!”, assusta-se Ema.
O trabalho da apanha da uva depende de um esforço concentrado e contínuo da equipa. Em duplas fixas, são amigos e já compartilharam muitas colheitas, cada trabalhador recolhe as uvas de um dos lados da cepa. A tilha é arrastada até ficar cheia, quem está do lado esquerdo do carreiro arrasta as duas tilhas, a sua e a da colega, de modo a facilitar o trabalho dos colegas que seguem. A levantar poeira vem o trator, logo atrás, a virar as tilhas no balde de aço inoxidável acoplado a máquina, os irmãos Joaquim e Francisco Conceição, com 45 e 42 anos. Após entornarem 32 tilhas o balde fica cheio com 600 quilos de uva. O ruído que segue anuncia a Ana Maria, a guiar um Massey Fergson 133 MK, um modelo apropriado para a recolha e redistribuição das tilhas. No sábado o reboque virou, havia uma pedra no caminho e e a carrinha desequilibrou-se. Sorte foi que a Maria Lucília, 54 anos, que anda pendurada atrás do reboque a atirar tilhas para a direita e a esquerda, com cuidadinho para não ferir as cepas, estava a beber água.
Todos bebem da mesma caneca, que repousa sobre o galão d’água disposto na entrada de cada carreiro. Repôr a água é um dos trabalhos da Maria Dias Pato, 71 anos. Está de luto, morreu-lhe a irmã faz pouco, de cancro. Depois de uma vida a ir para o trabalho a pé, aos 50 anos, comprou uma bicicleta e aprendeu sozinha a guiá-la nos fins de tarde sobre o acaltroado da frente de casa. Aos 60 anos, amealhados 350 contos, investiu numa mota. “Este ano é o último, estou muito cansada. O feitor que me pediu, ‘Maria, preciso de ti, és tu quem prepara o comer, não me deixes na mão’. E aqui estou. Eu nunca fui a escola, os meus pais o que me deram foi o ensino do trabalho”. A lenha já recolheu quando chegou, agora é só preparar o fogo de chão, dispor as 14 panelas do dia e cuidar dos assados na grelha. Os agricultores trazem os ingredientes já temperados nos tachos e Maria os prepara. Hoje há batatas com sardinha, entremeada com arroz, massa com febras, ervilhas com carne de frango.
Faleiro, Casinha, Madalena, Amendoeiras, Coelhos... alguns dos nomes com que os trabalhadores baptizaram as terras onde fazem a vindima. Hoje estão na Propriedade do Horácio. Apanham a Castelão, vulga Periquita. A terra tem 16 hectares, a média é de 3200 pés por hectar. A distância entre cada cepa é de 1,10 metros e o padrão entre os carreiros de 2,5 metros. Uma cepa assim da boa pode ter 40 cachos de uva. Nesta temporada houve dias em que cada trabalhador recolheu 1300 quilos de uva. É o ano perfeito. “Quem não fizer vinho bom este ano nunca mais o faz. As estações foram ideais para os agricultores e para a vinha. A chuva, o sol, o frio e o calor, tudo veio na medida certa. Os bagos estão negros e doces, darão um alto grau alcóolico, adequados para vinhos especiais”, avalia Arlindo Castelão, 54 anos, caseiro responsável pelo grupo, há 24 anos nas vindimas. “É preciso ser criativo, encontrar formas de fazer o trabalho render ao máximo para garantir os rendimentos a casa. Os patrões confiam, este ano vieram a vindima, ao campo, apenas uma vez”, orgulha-se Arlindo.
“Faço o meu trabalho com gosto, mas não estou aqui por opção, mas sim porque não há outra coisa para se fazer. É um trabalho muito duro, pesado. No Inverno é pior, as camadas de gelo sobre as cepas, as luvas devem ser de tecido para não ficarem agarradas nas varas. Podei muitos troços bons até dominar o ofício da poda, mas já já o faço de olhos fechados”, garante Anabela Ribeiro, 60 anos. Os filhos dos trabalhadores das vindimas não querem saber do campo, trabalham nas obras ou no comércio, “onde ganha-se mais com menos esforço”. O casal Bruno e Carina, com 31 e 22 anos, são excepções. “Perdi o emprego na fábrica de pré-moldes e tive de vir para as vindimas, é preciso desenrascar-se. A Carina já aqui estava e tem mais prática do que eu, mas não há nada que não se aprenda, estou cada dia mais rápido na apanha”, repara Bruno. Naciolinda Cantante Neto, 60 anos, aproveita a pausa do almoço para esticar as pernas e relaxar a coluna, explica que o vinho é muito melhor do que os sumos e do que outras bebidas, “cheias de corantes”. Gosta de vinho e bebe vinho em casa, uma taça ao jantar. Lembra-se de no Natal ter provado uma garrafa do que é feito com as uvas que apanha. Soube-lhe bem o aroma e aprovou o sabor. Havia poda das cepas no outro dia e foi dormir cedo.
*Publicado no jornal Diário de Notícias, 26 de Setembro de 2009
História de afecto com a terra
Nos tempos modernos a vindima termina quando o trator descarrega as uvas na adega. Identifica-se recepção a origem, a casta e o grau de álcool futuro das uvas. A fruta passa primeiro pelo separador, que elimina a parte herbácea da estrutura dos cachos. Seguem para o esmagador e daí para a fermentação. Os vinhos de gama vão para o estágio nos barris de carvalho enquanto a maior parte repousa nas cubas de aço inoxidável.
A Casa Ermelinda Freitas soma 126 depósitos onde são armazenados em média quatro milhões de litros de vinho. A vindima é a época de maior tensão, neste ano a quantidade de uva é tão grande que numa ocasião os tratores colocaram-se em fila para despejar as toneladas de fruta e as máquinas passaram a noite e a madrugada a esmagar. “O ciclo da natureza foi perfeito neste ano, a maturação das uvas foi exacta e promete uma excepcional safra de vinhos”, prevê Manuel Santos, proprietário.
Há quatro gerações a família Freitas planta vinha e produz vinhos em Fernando Pó, em Palmela. Entretanto, a Casa tornou-se numa grande e premiada produtora há menos de 20 anos, quando Leonor Freitas decidiu-se a retomar e modernizar o negócio da família. “O diferencial dos nossos vinhos são a relação de afecto com os trabalhadores rurais e com a terra, e a poesia do vinho está nesta paixão que as pessoa põem no que fazem”, garante Leonor Freitas.
Domingo, 31 de Maio de 2009
O meu Portugal inteiro*
O meu Portugal começa em Maio de 68, quando o meu pai, Fernando Jorge – por apreço à vida e por um amor à pátria que se faz também de ideias -, desertou da Força Aérea Portuguesa. Partiu por uma Europa que procurava afirmação económica e política. Desembarcou no Brasil, onde nasci e aprendi na voz de Chico Buarque que o 25 de Abril tinha sido uma “bonita festa, pá”. O meu Portugal com a sua chuva de cravos marcava o início de uma era democrática, que décadas mais tarde se estenderia aos países do Leste, hoje a compor uma única Europa. Na adolescência vivi pela primeira vez em Portugal, em Cascais, e desvendei o que seria quando crescesse. Na Torre de Belém, que assinala a tão portuguesa valentia de navegar, um jornalista com histórias da Guerra do Iraque alertava-me para a melhor profissão do mundo. Regressei ao meu Portugal em Maio de 2007 – com as folhas verdes a cobrir a Avenida da Liberdade e o cheiro das sardinhas a insinuar-se das tascas, a prometer Verão. É Maio, Portugal faz parte de uma Europa alargada que encontrou e busca consensos. Espanta-me a reticência dos portugueses em afluir às urnas para a escolha dos nossos representantes no Parlamento Europeu. Depois de tanto mar, batalhas e cravos, o que temos a dizer sobre a ‘nossa’ Europa? O meu Portugal é Pessoa, que me deu a língua e o sentido de ser-se português: “Para ser grande sê inteiro”.
Isadora Ataíde, Jornalista – Diário de Notícias, 29 de Maio de 2009.
*No âmbito das eleições para o Parlamento Europeu o jornal Diário de Notícias publica ‘perfis’ dos 27 países que compõe a União Europeia. Acompanham os textos crónicas de jornalistas. Calhou-me Portugal, justo na altura em que se completam dois anos além-mar.
Quinta-feira, 12 de Fevereiro de 2009
Meu Fernando, papá,
Ouvias Beatriz Costa? Gostas de cozido aos domingos? O que te parecem os filmes do Manuel Oliveira? Continuamos orgulhosamente sós? Sabem-te melhor os vinhos do Douro ou do Alentejo? Queluz ou Sintra, qual o teu palácio favorito? Afonso Henriques ou Dom Diniz, com qual rei tomarias um copo?
Na minha cidade tem poetas, poetas,
Que chegam sem tambores nem trombetas, trombetas,
E sempre aparecem quando menos aguardados, guardados, guardados,
Entre livros e sapatos, em baús empoeirados.
Saem de recônditos lugares no ares, nos ares,
Onde vivem com seus pares, seus pares,
Seus pares e convivem com fantasmas multicores, de cores, de cores,
Que te pintam as olheiras e te pedem que não chores
Suas ilusões são repartidas partidas, partidas,
Entre mortos e feridas, feridas, feridas,
Mas resistem com palavras, confundidas, fundidas, fundidas,
Ao seu triste passo lento pelas ruas e avenidas.
Pois, cá estamos. Conversei com o Rui Reininho, um raro diálogo possível. Se calhar cruzaram-se em algum baile no Porto, na casa das boas famílias bretãs, diz ele que as inglesas são belas até os 18, depois vai-se embora o bom feitio. As minhas pautas são caminhos para reencontrar-te, para reencontrar-me. E somos difíceis porque somos portugueses, dizia a Amália. Eu sei que não gostas de Fado, tão pudico, a dissonar da sedução, da algarvia, do samba, sem qualquer bossa.
Noutro dia estive em Beja, no estabelecimento prisional. Não habitava-me qualquer melancolia, eu era apenas a jornalista que me pressuponho. Atenta aos ruídos das lágrimas, a perseguir os cheiros dos calendários vencidos, a gastar saliva em perguntas obsoletas, a retrair os meus movimentos para não ocupar espaço, a tentar reflectir sem memória, e esta a fazer as vezes de guia da jornalista. Eles, os reclusos, eram apenas gente, a aplaudir as mulheres que dançavam, com histórias alegres, saudosas ou lamentáveis. Cheios de orgulho de um arrependimento privado, autocríticos em relação aos seus crimes e bravos nos seus discursos. Cumpridores de penas, tão humanos. E eu tão reles, de uma brutalidade básica que ofendia o bom senso e a sensibilidade daqueles que eu desejava como comparsas de uma reportagem de entretenimento no pós-Natal.
Eu vendia vestidos em nossa última conversa. Há dias em que me é permitido ser jornalista, aprendi-o também na faina das sedas. Há um descompasso. Eu desejo o que fenece, eu almejo o que encerra. Os jornalistas, subtilmente deslocados da sua função social, desnecessários num mundo de velocidade que antes requeria minúcia. Um horizonte de certezas no qual deveria a dúvida ser locomotiva. Um bocado indisposta, um chover que provoca o anseio da imobilidade, uma tempestade que paralisa. E eu inquieta, árdua. Eu nasci junto com o fim do mundo, com o fim de tudo. Eu descobri o socialismo quando a cortina puída caiu por si só, sem precisar que a empurrassem. Cresci jornalista na sombra e na desconfiança cultivada contra os assessores de comunicação. Sou jornalista num início de século mal parido, onde somos todos prescindíveis, desnecessários. Um tempo onde não há factos ou histórias, apenas fragmentos de conversas, restos de falas deslocadas, ruídos de queixas. O horizonte apagou-se com a morte do último revisor, com o assassinato do penúltimo crítico a quem foi proibido fazer sucessão.
O Gasset diz que o homem massa do século XX tem orgulho do seu tempo, que é o ápice da história, o fim dos tempos pois todas as conquistas foram possíveis, onde o almejado é facto. E que o homem nobre, o humanista e não o aristocrata, tem saudades do passado. Como pressentes sou a mulher descompasso, a querer fazer parte do presente com os preceitos do passado. E a verdade é que eu sequer resisto, por não saber quais armas empunhar, por temer a defesa das ideias em meio a pensamentos e actos únicos, por vacilar perante as exigências do sobreviver. E lá no íntimo, reina um medo original de não saber fazer, não poder pensar, não ousar diverso. E então eu mergulho na piscina, jogo-me, a saber que não há amparo, que estarei quieta e só.
Não desejam glórias nem medalhas, medalhas, medalhas,
Se contentam com migalhas, migalhas
Migalhas de canções e brincadeiras com seus versos dispersos, dispersos,
Obcecados pela busca de tesouros submersos.
Fazem quatrocentos mil projetos, projetos, projetos,
Que jamais são alcançados cansados, cansados,
Nada disso importa enquanto eles escrevem, escrevem, escrevem,
O que sabem que não sabem e o que dizem que não devem.
Andam pelas ruas os poetas, poetas, poetas,
Como se fossem cometas, cometas, cometas,
Num estranho céu de estrelas idiotas e outras, e outras,
Cujo brilho sem barulho veste suas caldas tortas.
As delícias são os meus sonhos loucos, tão presos ao passado, tão ricos em angústias silenciosas que se perpetuam no meu inconsciente. As malas perdidas no aeroporto, o desaparecimento do bilhete de retorno, a perda do controle da direcção do carro, a eterna discussão por telefone, as lágrimas a fazerem duvidar da razão e as certezas a abafar o choro. Os meus filhos inesperados, no ventre ou a serem amamentados por uma mulher perplexa. Tu a tocares piano, as fotos no desfiladeiro, dizes-me adeus e sorris e acabo no meio do deserto. Os meus seios nus a implicarem e implorarem piedade.
São precisas duas horas para voltar com calma ao quotidiano. Para reorganizar as ideias em ebulição, para retomar o pedantismo ou uma autoconfiança primária que me move. Repito os meus bordões e ajo de modo incessante a empurrar os nãos do mundo com palavras gentis, com “senhora doutora”, com “os meus melhrores cumprimentos”. Uso os meus dicionários, as luvas, as gramáticas, o chapéu e outros manuais de sobrevivência. Entorpeço-me de literatura, para fugir a própria insanidade, para não lidar com as palavras que não ouso dizer aos que amo.
A minha fala, a minha escrita e o que eu penso estão fora de tom. Não há arranjo possível, para nós ou para eles. Eu imito-me em qualquer direcção que siga, mas é o outro que sente-se copiado. Não me habita um discurso lúcido, farto-me de explicar. Sou apenas eu, e como não sou nem isso nem aquilo, não faço parte de lugar nenhum. E se eu gostar do limbo, como irei ao paraíso encontrar minha Beatriz? Náufragos, traficantes e degradados somos nós, o nosso nós e o nós deles. Mas eu sou a síntese do nós, a arcar com todas as parcelas de culpas. Nós brasileiros, nós portugueses. Sempre nesse fio de navalha, a repetir-se vezes sem fim. Um dia virá o ‘big bang’, e tenho receio por quem estará ao meu redor, por quem há de suportar o fardo destes anos de solidão – sabes que perfazem 89.
Estou sempre a perguntar-me o que fazias, o que pensavas, quem amavas, o que sonhavas, quais os teus anseios e as tuas frustrações. A inquetação do músico, a frigideira do bife, o encanto das indías, o não calar dos filhos, o silêncio do artista, a Elis no toca-discos, o dinheiro da feira, os ensaios da banda e a loiça de domingo. Como foi-te possível?
Hoje apeteceu-me sair a correr. Gritar, afogar as coisas e os seus eternos significados ao meu redor. Por que não me é permitido esquecer, ver e não relacionar? Dizer chega, parem o mundo, vou descer!! Não havia nenhum facto, apenas cartazes colados à parede com exercícios de geometria, a mesa da professora na entrada da sala com o globo sobreposto a representar o mundo. Três alunos calados, com uma história que não me interessava, três professoras sorridentes a ensinar-me seus métodos de reinserção?! As grades trouxeram-me a claustrofobia infantil, que me deixa muda, surda, inútil para o outro e para mim. Era o ponto de chegada, já não podia ouvir, perguntar, articular pensamentos. Estava presa nos meus queridos devaneios particulares. Eu contei ao cão o que havia se passado, e fez-se um céu de estrelas depois de um Janeiro de chuvas. É um cão que não lambe lágrimas, é um cão que pensa e não ladra. Um cão cheio de lembranças, independente, autoritário, a ensinar-me a história do mundo e a duvidar dos homens.
Fiz 30 anos. E permanecem as angústias dos 10, a querer saber onde acaba o infinito e se é possível, ao menos desta vez, va lá, ‘para sempre’. E o corpo pesa-me como aos 50, com esta pilha de cadernos de memórias que diariamente ressuscitam-me. Há dias em que subo ao Castelo e conquisto a cidade com o olhar, noutros o condutor do eléctrico, com sua rispidez e automatismo, derrota a manhã. As notícias do mundo não acalentam o futuro, as reportagens de amanhã prometem mais um pouco de entretenimento aos sábados. Os poetas, os escrevinhadores, os idéologos, as utopias, o encontro e o cão mantém-me a fé cega e a faca amolada.
Na minha cidade tem canetas, canetas, canetas,
Esvaindo-se em milhares, milhares,
Milhares de palavras retorcidas e confusas, confusas, confusas,
Em delgados guardanapos, feito moscas inconclusas.
Andam pelas ruas escrevendo e vendo, e vendo,
Que eles vêm nos vão dizendo, dizendo,
E sendo eles poetas de verdade enquanto espiam e piram, e piram,
Não se cansam de falar do que eles juram que não viram.
Olham para o céu esses poetas, poetas, poetas,
Como se fossem lunetas, lunetas, lunáticas,
Lançadas ao espaço e o mundo inteiro, inteiro, inteiro,
Fossem vendo pra depois voltar pro Rio de Janeiro.
Paper Napkins, Leo Masliah, versão portuguesa de Milton Nascimento