Quinta-feira, 17 de Dezembro de 2009
Sonhos não envelhecem

 

“O problema com a literatura, como com a vida, diz Don Crispín, é que afinal acabamos sempre por nos tornar um cabrões.” Roberto Bolaño, in Os Detectives Selvagens
 
Tomávamos o pequeno-almoço na Panificadora Brasília, junto a centenária figueira. Torradas de queijo e café com leite no balcão vermelho. Usávamos jeans, tu pólo azul e eu uma bata branca, com um quê de bordado no decote. O tempo ultrapassava-nos, tardávamos para uma reunião de planeamento da manif contra a lei da educação, hoje carinhosamente apelidada ‘Darcy Ribeiro’. Eu acendi o primeiro cigarro do dia a perguntar-te onde estaríamos dali a 15 anos. Se manteríamos a crença nas mesmas ideias, se os nossos sonhos seriam partilhados e se aquela amizade, para além do nosso desejo e entendimento amoroso, estender-se-ia. Disseste-me que sim com a tua mão de dedos longos pousada na minha coxa. E fizeste ressalvas – ao inerente amudarecimento da teoria provocado pelo empiricismo que não nos escapava, aos oceanos, aos continentes, às profissões, aos casamentos – para suster o teu sim.
 
O princípio.
 
Atravessamos em uníssono as antagónicas portas de vidro do hall de entrada do Congresso Nacional. A luz laranja-queimado que tinge os fins-de-tarde de Brasília transcendia as clarabóias. Tu vinhas com o Beto, e eu com a Cris. Eras o novo rei de uma antiga linhagem de jovens que mudaram o Brasil no século XX. Muitos desapareceram, outros sucumbiram. É preciso reconhecer que alguns tornaram-se mesmo traidores. Mas tu, com o teu nome que atravessa os séculos e ultrapassa os pressupostos (no melhor que Virgínia Woolf nos pode oferecer), eras o presente. Nenhum de nós encontrara quartos de hotel disponíveis numa típica quarta-feira da capital do país. E fomos os quatro tardia e displicentemente para a casa de Romã. Uma certa tradição anarquista ainda nos habitava, e isso era bom. A noite acabou num documentário sobre a monogamia entre os lobos. Talvez tenham sido os teus olhos imensos, ou o desenho da tua boca. O certo é que compunhamos um magnífico tom-sobre-tom em mistura de peles.
 
On the road.
 
Outono, garoa, cerveja preta, São Paulo. Acto público na Ordem dos Advogados, intelectuais contrários às privatizações de FHC. A minha e a tua presença foi citada, embora não tenhamos sido chamados para discurssar. Não estávamos no ‘nosso’ campo. Ficaste incomodado. Ainda posso tratar-te por tu? Ou seria mais adequado você? Senhor Dr.? Sua excelência? Bem, o brilhante e disciplinado Wlad, líder da tua fracção, bem tentou nos acompanhar. Admitiu a derrota, embora a demarcasse, e afirmou que nos deixava em paz com apelos ao bom senso naquele boteco que servia (serve?) o mais tenro sarapatel e a mais gelada cerveja do país, ali pela Vila Madalena. Foi uma longa noite, com um amanhecer inesquecível no terraço de um 15º andar. O sol a infriltar-se na neblina, a furar a poluição. Cidade redoma, lugar sem fim ou começo, bruta e veloz. Em 360º graus eram apenas edifícios e antenas. Milhões de habitantes, mas apenas eu e tu. Na negra ordem dos teus cachos mínimos e da tua intrínseca seriedade, pediste-me em namoro.
 
Mnemosyne, a deusa da memória, é a mãe das musas.
 
Quem não participou de um curso de formação política no Cajamar falhou a década de 90. O módulo era ‘materialismo dialéctico’, a professora Manoela Guaco mantinha um cigarro apagado entre os dedos e discorria sobre a ciência espacial. Numa caixa de papelão florido, escondida numa ilha dos mares do sul, dormem os teus bilhetes dobrados em forma de sanfona daquele dia. Combinávamos um encontro, e discutíamos em papéis mínimos se o melhor lugar seria o jardim da caixa d’água, com a vantagem da luz da lua, ou a piscina abandonada, com ou seus cadeirões em madeira desbotada. Acabamos por debater e concordar sobre o rumo da esquerda socialista e o ‘peleguismo’ da estrela vermelha docemente estirados na caixa d’água.
 
Tu não sabias dançar e eu era indisciplinada.
 
Sentias-te em casa na minha casa. Ousavas discutir política e música com o meu pai artista do Maio de 68. Sempre fomos bossa-nova e MPB, esse género que nos antecedia e que perpetuávamos. No dia da memorável passeata – dois trios eléctricos adentraram pelo Ministério Público, o que permitiu-nos em um passo aceder à varanda, ocupar a sala do procurador e todo o edifício - comemoramos na minha casa junto à Lagoa, com vinho chileno e Tom Jobim. Custou-te partir. Carregavas silêncio e a tua última t-shirt.
 
No congresso dos socialistas nos contrariamos em pleno. Eu contra a cota para mulheres na direcção. Apanhaste no microfone depois de mim, mas já assumias a derrota, tu, que eras o novo líder da Juventude do Araguaia. Eu, que partia rumo ao futuro enquanto prometias garantir o presente. Belo Horizonte foi meu último congresso, despedida. Coincidiu com a entrada em cena da jornalista. Ouvi e aplaudi Fidel. Entrevistei o último caudilho, Leonel Brizola. Atropelei um jornalista da Folha e ganhei o Bauptista Vidal. O Roberto Requião ficou deveras chateado - embora, sabes, não perde a pose e o tom suave – com a pergunta sobre a violência contra os sem-terra no Paraná. O congresso era a metáfora da minha festa privada de adeus. Se calhar nós os dois não queríamos despedidas.
 
Durante uns tempos ligávamo-nos na altura dos anos. Da última vez tinhas apanhado uma bebedeira – simulavas um vão discernimento ao criticar o comitê; descrevias a forma a textura da minha pele; queixavas-te de não ter concluído a licenciatura e culpavas-me por não existirmos. Tive notícias directas tuas há quatro anos. Encontraste minha irmã num bar em Brasília, ainda ocupavas o segundo escalão. Agora vejo-te pelas notícias, oiço o político e não te reconheço nos fatos. O menino tornou-se o poder. Eu estou no meio da multidão.
 
A verdadeira resposta da Panificadora Brasília.
 
Pedi-te uma entrevista. Porque o teu tema tem tido destaque. Embora, confesso, não  me interessa em particular, não o considero importante, tão pouco interessante. Todavia, é facto que neste âmbito teu reino chama atenção. A actualidade somada ao determinante das tuas ideias fizeram-me acreditar que valias uma pauta. Segui o procedimento padrão, apenas dei a pista de que nos conhecíamos a tua gentil assessora, com medo de me tornar ridícula por não lhe indicar o facto. É verdade que o responsável pela tua agenda foi meu líder intermediário, recebeu o meu respeito e o meu voto convicto. Pediram-me envergonhados às perguntas que eu far-te-ia. Respondi-lhes que tal era impossível – embora compreendesse, dado o lastimável estado do mundo. Passaram-se meses, fui relegada ao esquecimento, sem direito a um 'não'.
 
Estou furiosa. Louca contigo enquanto metáfora da minha geração e dos meus sonhos. Perplexa com a tua indiferença para com o mundo. Inquieta para com o teu silêncio autoritário e imperialista. Parece-me que te transformaste na nossa crítica, que se substituíram às pessoas, mas que os discursos e as práticas mantêm-se velhos e puídos. Outro dia, na redacção, alertaram-me delicadamente sobre a impropriedade de falar de tal liderança na presença de uma jornalista. Trata-se, ao que parece, de uma história de política, amor, ideias e sonhos. 
 
Eu não estou apenas furiosa. Sinto medo. Medo de que o poder para os meninos e para o povo seja apenas tu a afirmar-me a tua negação às velhas utopias. A tardia democracia, da qual nós políticos e jornalistas somos constituintes e garantes, não passará de um discurso bem comportado? Diz-me a verdade: és socialista e ressoam nos teus ouvidos as nossas palavras de ordem? És meu camarada e resta memória e uma antiga cumplicidade? Mantenho a raiva acesa, para garantir que não chegue a indeferença que me paralisará.
 
Digo-te quem sou. Para que não me temas. O tão querido Atlântico nos separa e mantenho-me bailarina. Da minha vida burguesa de assessora de comunicação passei a proletária condição de jornalista. Sou freelance, o que me dá o acréscimo de dignidade de dedicar-me aos temas que me interessam e importam. Estudo política, substantiva, não a corriqueira. Sou feminista e mudei de posição em relação às cotas, convencida pela Simone de Beauvoir. Embora, nós mulheres, continuemos a ser a alteridade. Eu mantenho-me na trincheira, contudo numa dimensão e com instrumentos distintos. As minhas crenças são exactamente as mesmas do século passado. Os meus sonhos projectaram-se, é verdade. Desde a Padaria Brasília houve outras latitudes, perspectivas, palavras e amores. Há acrescento de ponderação, de conhecimento, de disciplina, de calma para com o meu semelhante e com as ideias. Mas, na essência, reafirmo-me. Gostaria de chamar a sonoridade do teu nome em voz alta  e com a devida maiúscula. Mas, há algo mais antigo, que eu nomeio de lealdade para com o que fomos e o que sou, que se impõe.
 

“Eu apenas queria que você soubesse

Que aquela alegria ainda está comigo

E que a minha ternura não ficou na estrada

Não ficou no tempo presa na poeira

 

Eu apenas queira que você soubesse

Que essa criança brinca nesta roda

E não teme o corte de novas feridas

Pois tem a saúde que aprendeu com a vida”

 

(Gonzaguinha, Eu apenas queria que você soubesse)

 


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Segunda-feira, 28 de Setembro de 2009
Viver para a uva e colher o vinho*

 

Os trabalhadores nas vindimas não sabem onde mora a poesia do vinho. Mas estão certos de que sem as suas mãos agéis na apanha da uva não há néctar dos deuses - que eles chamam mesmo de vinhaça
 
Mulheres e homens apressam o passo nos carreiros, despem as cepas sem olhar para os cachos, sem tratamentos diferenciados para as uvas tintas ou brancas, não pensam nas melhores combinações entre vinho e o menu, mas as onze da manhã o estômago dá o alerta. Há sol, mas é o medo que venha a chuva - e encontre as vinhas desprevenidas, encharque as raízes e estas conduzam água para os bagos – que rege os dias dos agricultores. As 14 mulheres e os dez homens que apanham uva em Fernando Pó não estão a fazer enoturismo numa quinta especializada. A maioria está entre os 50 e 70 e muitos anos, estão a repetir a faina das gerações que os precederam. Se a habilidade de apanhar uvas estivesse definida num caractere transmissível, o seu ADN portaria o ofício das vindimas. Neste ano a colheita largou às oito da manhã do dia 19 de Agosto e deve seguir por mais nove ou dez dias. São responsáveis directos pelos quatro milhões de litros de vinho que a Casa Ermelinda Freitas estima produzir nesta temporada. Quem os vê trabalhar, cansados mas inquietos, não hesita em suspeitar que a poesia do vinho aloje-se nas rugas do rosto, nas dobras da pele das mãos e nas rachas das unhas dos apanhadores de uva.
 
Maria Fernanda Gregório tem 64 anos, não lembra ao certo quantos meses tinha quando da sua estréia na vinha. Ouviu assim de contar que primeiro ficava no cesto da bicicleta, e depois dessa fase já se recorda de arrastar-se pelo carreiro. “Se calhar dei os primeiros passos na vinha. A minha avó levava-me para o campo, depois trazia-me a minha mãe. E assim que tive idade, começei também eu a apanhar uva”. Os trabalhadores da vindima definem-se como agricultores, a “idade certa” para começar a trabalhar varia entre os oito e os 11 anos, os rapazes podem ir mais cedo para o campo. Marina Fernandes, 66 anos, meteu a cara na vinha aos 11 anos. Faz parte das primeiras gerações de mulheres “autorizadas a descaldeirar”, que trata-se de nivelar o solo ao redor da cepa com a enxada e retirar as ervas. “Quando os homens começaram a ir para fora, fazer trabalhos que davam mais dinheiro, como as obras,  as mulheres começaram a descaldeirar. Mas já não se faz isso, é raro ver uma vinha descaldeirada”.
 
O marido de Marina vem logo atrás, no carreiro oposto arrasta a sua tilha até encher, o que rende uns 20 quilos. “Eu não sei ler nem escrever e na região não há nada para se fazer. No Verão apanhamos a uva, no Inverno fazemos a poda e a cura das cepas. É um trabalho pesado, chega-se a noite exausto, com o corpo a pedir cama”, conta sem descurar da colheita José de Oliveira Fernanes, 75 anos. O grupo de 24 agricultores compõem a equipa de campo da Casa Ermelinda Freitas, o que significa que há trabalho durante oito ou nove meses por ano. Em Agosto e Setembro, no máximo até Outubro, faz-se a apanha da uva. Entre Novembro e Março, com “a ajuda de Deus” Maio, trabalham na poda e na cura das cepas. Depois são demitidos e vão para o seguro desemprego. “É a sazonalidade da nossa vida, trabalhamos durante oito meses e ficamos desempregados outros quatro. Nessa altura, se conseguirmos, fazemos outros trabalhos na agricultura, cuidamos da casa e da horta”, explica Maria Lucinda, 54 anos. Durante a poda, no Inverno, os trabalhadores ganham 28 euros, com os encargos sociais por conta da patroa, por um dia que começa às oito horas da manhã e termina as cinco da tarde. No Verão são 33 euros por dia, o pagamento é feito ao fim de cada semana.
 
Ema, 39 anos, nasceu em Agualva de Cima, onde vive. De casa leva 10 minutos para chegar ao ponto de encontro onde apanha a carrinha com o feitor e os colegas. Nas terras em que colhe a uva o clima é do tipo mediterrânico continental, sendo influenciado pelas bacias do Tejo e do Sado e pela proximidade do mar. O solo é de areias e arenitos. “Por cima do corpo usamos uma bata que vem até a altura do rabo. Por cima uma camisa bem fechada, para proteger os braços. Calças, meias e sapatilhas. O chapéu é para aliviar do sol, e as luvas para não magoar as mãos ou manchá-las. Mesmo assim, toda tapada, chego a casa com areia no corpo inteiro, a poeira gruda, faz parte de nós. Ei, acho que perdi a minha camarada!”, assusta-se Ema.
 
O trabalho da apanha da uva depende de um esforço concentrado e contínuo da equipa. Em duplas fixas, são amigos e já compartilharam muitas colheitas, cada trabalhador recolhe as uvas de um dos lados da cepa. A tilha é arrastada até ficar cheia, quem está do lado esquerdo do carreiro arrasta as duas tilhas, a sua e a da colega, de modo a facilitar o trabalho dos colegas que seguem. A levantar poeira vem o trator, logo atrás, a virar as tilhas no balde de aço inoxidável acoplado a máquina, os irmãos Joaquim e Francisco Conceição, com 45 e 42 anos. Após entornarem 32 tilhas o balde fica cheio com 600 quilos de uva. O ruído que segue anuncia a Ana Maria, a guiar um Massey Fergson 133 MK, um modelo apropriado para a recolha e redistribuição das tilhas. No sábado o reboque virou, havia uma pedra no caminho e e a carrinha desequilibrou-se. Sorte foi que a Maria Lucília, 54 anos, que anda pendurada atrás do reboque a atirar tilhas para a direita e a esquerda, com cuidadinho para não ferir as cepas, estava a beber água.
 
Todos bebem da mesma caneca, que repousa sobre o galão d’água disposto na entrada de cada carreiro. Repôr a água é um dos trabalhos da Maria Dias Pato, 71 anos. Está de luto, morreu-lhe a irmã faz pouco, de cancro.  Depois de uma vida a ir para o trabalho a pé, aos 50 anos, comprou uma bicicleta e aprendeu sozinha a guiá-la nos fins de tarde sobre o acaltroado da frente de casa. Aos 60 anos, amealhados 350 contos, investiu numa mota. “Este ano é o último, estou muito cansada. O feitor que me pediu, ‘Maria, preciso de ti, és tu quem prepara o comer, não me deixes na mão’. E aqui estou. Eu nunca fui a escola, os meus pais o que me deram foi o ensino do trabalho”. A lenha já recolheu quando chegou, agora é só preparar o fogo de chão, dispor as 14 panelas do dia e cuidar dos assados na grelha. Os agricultores trazem os ingredientes já temperados nos tachos e Maria os prepara. Hoje há batatas com sardinha, entremeada com arroz, massa com febras, ervilhas com carne de frango.
 
Faleiro, Casinha, Madalena, Amendoeiras, Coelhos... alguns dos nomes com que os trabalhadores baptizaram as terras onde fazem a vindima. Hoje estão na Propriedade do Horácio. Apanham a Castelão, vulga Periquita. A terra tem 16 hectares, a média é de 3200 pés por hectar. A distância entre cada cepa é de 1,10 metros e o padrão entre os carreiros de 2,5 metros. Uma cepa assim da boa pode ter 40 cachos de uva. Nesta temporada houve dias em que cada trabalhador recolheu 1300 quilos de uva. É o ano perfeito. “Quem não fizer vinho bom este ano nunca mais o faz. As estações foram ideais para os agricultores e para a vinha. A chuva, o sol, o frio e o calor, tudo veio na medida certa. Os bagos estão negros e doces, darão um alto grau alcóolico, adequados para vinhos especiais”, avalia Arlindo Castelão, 54 anos, caseiro responsável pelo grupo, há 24 anos nas vindimas. “É preciso ser criativo, encontrar formas de fazer o trabalho render ao máximo para garantir os rendimentos a casa. Os patrões confiam, este ano vieram a vindima, ao campo, apenas uma vez”, orgulha-se Arlindo.
 
“Faço o meu trabalho com gosto, mas não estou aqui por opção, mas sim porque não há outra coisa para se fazer. É um trabalho muito duro, pesado. No Inverno é pior, as camadas de gelo sobre as cepas, as luvas devem ser de tecido para não ficarem agarradas nas varas. Podei muitos troços bons até dominar o ofício da poda, mas já já o faço de olhos fechados”, garante Anabela Ribeiro, 60 anos. Os filhos dos trabalhadores das vindimas não querem saber do campo, trabalham nas obras ou no comércio, “onde ganha-se mais com menos esforço”. O casal Bruno e Carina, com 31 e 22 anos, são excepções. “Perdi o emprego na fábrica de pré-moldes e tive de vir para as vindimas, é preciso desenrascar-se. A Carina já aqui estava e tem mais prática do que eu, mas não há nada que não se aprenda, estou cada dia mais rápido na apanha”, repara Bruno. Naciolinda Cantante Neto, 60 anos, aproveita a pausa do almoço para esticar as pernas e relaxar a coluna, explica que o vinho é muito melhor do que os sumos e do que outras bebidas, “cheias de corantes”. Gosta de vinho e bebe vinho em casa, uma taça ao jantar. Lembra-se de no Natal ter provado uma garrafa do que é feito com as uvas que apanha. Soube-lhe bem o aroma e aprovou o sabor. Havia poda das cepas no outro dia e foi dormir cedo.
 
*Publicado no jornal Diário de Notícias, 26 de Setembro de 2009
 
História de afecto com a terra
 
Nos tempos modernos a vindima termina quando o trator descarrega as uvas na adega. Identifica-se recepção a origem, a casta e o grau de álcool futuro das uvas. A fruta passa primeiro pelo separador, que elimina a parte herbácea da estrutura dos cachos. Seguem para o esmagador e daí para a fermentação. Os vinhos de gama vão para o estágio nos barris de carvalho enquanto a maior parte repousa nas cubas de aço inoxidável.
 
A Casa Ermelinda Freitas soma 126 depósitos onde são armazenados em média quatro milhões de litros de vinho. A vindima é a época de maior tensão, neste ano a quantidade de uva é tão grande que numa ocasião os tratores colocaram-se em fila para despejar as toneladas de fruta e as máquinas passaram a noite e a madrugada a esmagar. “O ciclo da natureza foi perfeito neste ano, a maturação das uvas foi exacta e promete uma excepcional safra de vinhos”, prevê Manuel Santos, proprietário.
 
Há quatro gerações a família Freitas planta vinha e produz vinhos em Fernando Pó, em Palmela. Entretanto, a Casa tornou-se numa grande e premiada produtora há menos de 20 anos, quando Leonor Freitas decidiu-se a retomar e modernizar o negócio da família. “O diferencial dos nossos vinhos são a relação de afecto com os trabalhadores rurais e com a terra, e a poesia do vinho está nesta paixão que as pessoa põem no que fazem”, garante Leonor Freitas.
 


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Domingo, 31 de Maio de 2009
O meu Portugal inteiro*

 

O meu Portugal começa em Maio de 68, quando o meu pai, Fernando Jorge – por apreço à vida e por um amor à pátria que se faz também de ideias -, desertou da Força Aérea Portuguesa. Partiu por uma Europa que procurava afirmação económica e política. Desembarcou no Brasil, onde nasci e aprendi na voz de Chico Buarque que o 25 de Abril tinha sido uma “bonita festa, pá”. O meu Portugal com a sua chuva de cravos marcava o início de uma era democrática, que décadas mais tarde se estenderia aos países do Leste, hoje a compor uma única Europa. Na adolescência vivi pela primeira vez em Portugal, em Cascais, e desvendei o que seria quando crescesse. Na Torre de Belém, que assinala a tão portuguesa valentia de navegar, um jornalista com histórias da Guerra do Iraque alertava-me para a melhor profissão do mundo. Regressei ao meu Portugal em Maio de 2007 – com as folhas verdes a cobrir a Avenida da Liberdade e o cheiro das sardinhas a insinuar-se das tascas, a prometer Verão. É Maio, Portugal faz parte de uma Europa alargada que encontrou e busca consensos. Espanta-me a reticência dos portugueses em afluir às urnas para a escolha dos nossos representantes no Parlamento Europeu. Depois de tanto mar, batalhas e cravos, o que temos a dizer sobre a ‘nossa’ Europa? O meu Portugal é Pessoa, que me deu a língua e o sentido de ser-se português: “Para ser grande sê inteiro”.
 
Isadora Ataíde, Jornalista – Diário de Notícias, 29 de Maio de 2009.
 
*No âmbito das eleições para o Parlamento Europeu o jornal Diário de Notícias publica ‘perfis’ dos 27 países que compõe a União Europeia. Acompanham os textos crónicas de jornalistas. Calhou-me Portugal, justo na altura em que se completam dois anos além-mar.
 
 


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Quinta-feira, 12 de Fevereiro de 2009
Meu Fernando, papá,

 

Ouvias Beatriz Costa? Gostas de cozido aos domingos? O que te parecem os filmes do Manuel Oliveira? Continuamos orgulhosamente sós? Sabem-te melhor os vinhos do Douro ou do Alentejo? Queluz ou Sintra, qual o teu palácio favorito? Afonso Henriques ou Dom Diniz, com qual rei tomarias um copo?
 
Na minha cidade tem poetas, poetas,
Que chegam sem tambores nem trombetas, trombetas,
E sempre aparecem quando menos aguardados, guardados, guardados,
Entre livros e sapatos, em baús empoeirados.
Saem de recônditos lugares no ares, nos ares,
Onde vivem com seus pares, seus pares,
Seus pares e convivem com fantasmas multicores, de cores, de cores,
Que te pintam as olheiras e te pedem que não chores
Suas ilusões são repartidas partidas, partidas,
Entre mortos e feridas, feridas, feridas,
Mas resistem com palavras, confundidas, fundidas, fundidas,
Ao seu triste passo lento pelas ruas e avenidas.
 
 
Pois, cá estamos. Conversei com o Rui Reininho, um raro diálogo possível. Se calhar cruzaram-se em algum baile no Porto, na casa das boas famílias bretãs, diz ele que as inglesas são belas até os 18, depois vai-se embora o bom feitio. As minhas pautas são caminhos para reencontrar-te, para reencontrar-me. E somos difíceis porque somos portugueses, dizia a Amália. Eu sei que não gostas de Fado, tão pudico, a dissonar da sedução, da algarvia, do samba, sem qualquer bossa.
 
Noutro dia estive em Beja, no estabelecimento prisional. Não habitava-me qualquer melancolia, eu era apenas a jornalista que me pressuponho. Atenta aos ruídos das lágrimas, a perseguir os cheiros dos calendários vencidos, a gastar saliva em perguntas obsoletas, a retrair os meus movimentos para não ocupar espaço, a tentar reflectir sem memória, e esta a fazer as vezes de guia da jornalista. Eles, os reclusos, eram apenas gente, a aplaudir as mulheres que dançavam, com histórias alegres, saudosas ou lamentáveis. Cheios de orgulho de um arrependimento privado, autocríticos em relação aos seus crimes e bravos nos seus discursos. Cumpridores de penas, tão humanos. E eu tão reles, de uma brutalidade básica que ofendia o bom senso e a sensibilidade daqueles que eu desejava como comparsas de uma reportagem de entretenimento no pós-Natal.
 
Eu vendia vestidos em nossa última conversa. Há dias em que me é permitido ser jornalista, aprendi-o também na faina das sedas. Há um descompasso. Eu desejo o que fenece, eu almejo o que encerra. Os jornalistas, subtilmente deslocados da sua função social, desnecessários num mundo de velocidade que antes requeria minúcia. Um horizonte de certezas no qual deveria a dúvida ser locomotiva. Um bocado indisposta, um chover que provoca o anseio da imobilidade, uma tempestade que paralisa. E eu inquieta, árdua. Eu nasci junto com o fim do mundo, com o fim de tudo. Eu descobri o socialismo quando a cortina puída caiu por si só, sem precisar que a empurrassem. Cresci jornalista na sombra e na desconfiança cultivada contra os assessores de comunicação. Sou jornalista num início de século mal parido, onde somos todos prescindíveis, desnecessários. Um tempo onde não há factos ou histórias, apenas fragmentos de conversas, restos de falas deslocadas, ruídos de queixas. O horizonte apagou-se com a morte do último revisor, com o assassinato do penúltimo crítico a quem foi proibido fazer sucessão.
 
O Gasset diz que o homem massa do século XX tem orgulho do seu tempo, que é o ápice da história, o fim dos tempos pois todas as conquistas foram possíveis, onde o almejado é facto. E que o homem nobre, o humanista e não o aristocrata, tem saudades do passado. Como pressentes sou a mulher descompasso, a querer fazer parte do presente com os preceitos do passado. E a verdade é que eu sequer resisto, por não saber quais armas empunhar, por temer a defesa das ideias em meio a pensamentos e actos únicos, por vacilar perante as exigências do sobreviver. E lá no íntimo, reina um medo original de não saber fazer, não poder pensar, não ousar diverso. E então eu mergulho na piscina, jogo-me, a saber que não há amparo, que estarei quieta e só.
 
Não desejam glórias nem medalhas, medalhas, medalhas,
Se contentam com migalhas, migalhas
Migalhas de canções e brincadeiras com seus versos dispersos, dispersos,
Obcecados pela busca de tesouros submersos.
Fazem quatrocentos mil projetos, projetos, projetos,
Que jamais são alcançados cansados, cansados,
Nada disso importa enquanto eles escrevem, escrevem, escrevem,
O que sabem que não sabem e o que dizem que não devem.
Andam pelas ruas os poetas, poetas, poetas,
Como se fossem cometas, cometas, cometas,
Num estranho céu de estrelas idiotas e outras, e outras,
Cujo brilho sem barulho veste suas caldas tortas.
 
 
As delícias são os meus sonhos loucos, tão presos ao passado, tão ricos em angústias silenciosas que se perpetuam no meu inconsciente. As malas perdidas no aeroporto, o desaparecimento do bilhete de retorno, a perda do controle da direcção do carro, a eterna discussão por telefone, as lágrimas a fazerem duvidar da razão e as certezas a abafar o choro. Os meus filhos inesperados, no ventre ou a serem amamentados por uma mulher perplexa. Tu a tocares piano, as fotos no desfiladeiro, dizes-me adeus e sorris e acabo no meio do deserto. Os meus seios nus a implicarem e implorarem piedade.
 
São precisas duas horas para voltar com calma ao quotidiano. Para reorganizar as ideias em ebulição, para retomar o pedantismo ou uma autoconfiança primária que me move. Repito os meus bordões e ajo de modo incessante a empurrar os nãos do mundo com palavras gentis, com “senhora doutora”, com “os meus melhrores cumprimentos”. Uso os meus dicionários, as luvas, as gramáticas, o chapéu e outros manuais de sobrevivência. Entorpeço-me de literatura, para fugir a própria insanidade, para não lidar com as palavras que não ouso dizer aos que amo.
 
A minha fala, a minha escrita e o que eu penso estão fora de tom. Não há arranjo possível, para nós ou para eles. Eu imito-me em qualquer direcção que siga, mas é o outro que sente-se copiado. Não me habita um discurso lúcido, farto-me de explicar. Sou apenas eu, e como não sou nem isso nem aquilo, não faço parte de lugar nenhum. E se eu gostar do limbo, como irei ao paraíso encontrar minha Beatriz? Náufragos, traficantes e degradados somos nós, o nosso nós e o nós deles. Mas eu sou a síntese do nós, a arcar com todas as parcelas de culpas. Nós brasileiros, nós portugueses. Sempre nesse fio de navalha, a repetir-se vezes sem fim. Um dia virá o ‘big bang’, e tenho receio por quem estará ao meu redor, por quem há de suportar o fardo destes anos de solidão – sabes que perfazem 89.
 
Estou sempre a perguntar-me o que fazias, o que pensavas, quem amavas, o que sonhavas, quais os teus anseios e as tuas frustrações. A inquetação do músico, a frigideira do bife, o encanto das indías, o não calar dos filhos, o silêncio do artista, a Elis no toca-discos, o dinheiro da feira, os ensaios da banda e a loiça de domingo. Como foi-te possível?
 
Hoje apeteceu-me sair a correr. Gritar, afogar as coisas e os seus eternos significados ao meu redor. Por que não me é permitido esquecer, ver e não relacionar?  Dizer chega, parem o mundo, vou descer!! Não havia nenhum facto, apenas cartazes colados à parede com exercícios de geometria, a mesa da professora na entrada da sala com o globo sobreposto a representar o mundo. Três alunos calados, com uma história que não me interessava, três professoras sorridentes a ensinar-me seus métodos de reinserção?! As grades trouxeram-me a claustrofobia infantil, que me deixa muda, surda, inútil para o outro e para mim. Era o ponto de chegada, já não podia ouvir, perguntar, articular pensamentos. Estava presa nos meus queridos devaneios particulares. Eu contei ao cão o que havia se passado, e fez-se um céu de estrelas depois de um Janeiro de chuvas. É um cão que não lambe lágrimas, é um cão que pensa e não ladra. Um cão cheio de lembranças, independente, autoritário, a ensinar-me a história do mundo e a duvidar dos homens.
 
Fiz 30 anos. E permanecem as angústias dos 10, a querer saber onde acaba o infinito e se é possível, ao menos desta vez, va lá, ‘para sempre’. E o corpo pesa-me como aos 50, com esta pilha de cadernos de memórias que diariamente ressuscitam-me. Há dias em que subo ao Castelo e conquisto a cidade com o olhar, noutros o condutor do eléctrico, com sua rispidez e automatismo, derrota a manhã. As notícias do mundo não acalentam o futuro, as reportagens de amanhã prometem mais um pouco de entretenimento aos sábados. Os poetas, os escrevinhadores, os idéologos, as utopias, o encontro e o cão mantém-me a fé cega e a faca amolada. 
 
Na minha cidade tem canetas, canetas, canetas,
Esvaindo-se em milhares, milhares,
Milhares de palavras retorcidas e confusas, confusas, confusas,
Em delgados guardanapos, feito moscas inconclusas.
Andam pelas ruas escrevendo e vendo, e vendo,
Que eles vêm nos vão dizendo, dizendo,
E sendo eles poetas de verdade enquanto espiam e piram, e piram,
Não se cansam de falar do que eles juram que não viram.
Olham para o céu esses poetas, poetas, poetas,
Como se fossem lunetas, lunetas, lunáticas,
Lançadas ao espaço e o mundo inteiro, inteiro, inteiro,
Fossem vendo pra depois voltar pro Rio de Janeiro.
 
Paper Napkins, Leo Masliah, versão portuguesa de Milton Nascimento


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Domingo, 7 de Setembro de 2008
Breves releituras

Na selecção de livros e mulheres fiz uso dos mesmos critérios. A princípio foi imperceptível, consequência ordinária do que me era oferecido pelas prateleiras e explanadas. Mais tarde, quando apercebi-me, tratava-se não de hábito, mas de uma conduta inconsciente. As opções literárias e amorosas a darem-se pelos mesmos parâmetros incrustara-se no meu caráter, moldara-me a personalidade.

 

Houve um condicionamento gradual da parte dele, do meu pai, de início subtil, camuflado em sugestões, em censuras alegres aos meus livros e donzelas. Mais tarde veio o comando, a palavra de rei a imperar, como se não houvesse outro afluente possível para o meu caminhar. Era uma tarde de domingo outonal, azul puro rasgado de ventania. Para ele tratava-se do mais belo anoitecer do século, para mim era o fim de uma era. Estávamos na estação de comboio, eu no trem, erecto e tenso, ele na gare, com réstias de consciêcia que lhe garantiam a ausência dos reencontros. Já estava ensaiado, pareceu-me, mas só no último instante saíram-lhe as palavras, num esforço de despedida. “A viagem é um contínuo inevitável, não cessa. A viagem constitui o próprio mundo, no qual serás sempre náufrago. As mulheres e os livros são as escolhas que fazes, determinam-te. Todo o resto daí virá.”

 

Hoje vivo entre memórias de seios e palavras, de ancas e títulos, uma mescla infindável de génios e deusas, de copistas banais e trepadas medíocres. E há uma solidão incomensurável a sufocar-me, e restam-me palavras escritas e sussurradas, que recordam-me que sou sublime.

 

As livrarias, as feiras e os alfarrabistas por regra frequento solitariamente, incógnito.  Ignoro conhecidos, despacho amigos, em especial evito todo o tipo de mulheres. Mal-estar crónico pela hipótese dos alcovoteiros a policiar meu trânsito entre as estantes. Mexeriqueiros de soslaio a avaliar os volumes que folheio, a apurar o ouvido para as frases que soletro numa primeira abordagem. Estúpidos em busca de suprir suas carências, a manifestar sua bestialidade de leitores na crença da erudição.

 

Descobrir e encantar mulheres, como nos livros, requer silêncio e privacidade.  O silêncio não para dar-lhes atenção, mas para roubar-lhes a concentração, deixá-las um tanto mancas. Quietude para causar perplexidade e levá-las a questionamentos, tal qual os livros, que fazem apelos surdos aos nossos olhos, e nos obrigam a levá-los para casa em busca de um encontro. É imprescindível que eu esteja só para atrair e perder-me com as mulheres. Concentro-me nos detalhes, a finalização de um lóbulo, a posição dos pés, os trejeitos dos olhos quando da presença de um sorriso ou de uma dúvida.

 

A crítica é-me por absoluto desnecessária para introduções e encontros literários. É evidente que mantenho-me atento, alerta para a indicação da abertura de arcas milenares, disponível para as dicas a respeito dos que acabaram de ser paridos. Mas trata-se sobretudo de um ar composto para com os resenhistas, ludibriá-los de modo a crerem-se influentes, como se marés literárias houvesse. Com os amigos uso da complecência. É necessário compreendê-los, aceitá-los, permitir seus comentários de superfície sobre as minhas mulheres.

 

Eu tenho mulheres de todos os tipos. Uso ‘ter’ no presente porque uma mulher depois que chega jamais parte de mim. O que elas, as mulheres, proporcionam-me constitui-me a carne, as ideias, os desejos que ainda hão de aflorar. São elas e os livros que modelam o meu entendimento possível do mundo, só posso compreender a humanidade e a aceitar os meus desenganos a partir das mulheres e das palavras que atracaram no homem que sou. São minhas todas as mulheres que me perpassam. Assim como os livros elas moram na memória de um arrepio num banho de mar de fim de tarde, de uma lembrança cremosa despertada pelo pequeno-almoço, o estrondo de um vidro a partir, o músculo da coxa a contrair em reflexo.

 

Pertencem-me edições de todo o tipo. Ilustradas em papel de arroz, contemporâneas em cores gritantes, clássicas em papel bíblia e capa de couro, baratas em língua estrageira, tal qual dicionário de cama, para treinar o idioma. Edições gratuitas dos jornais e carimbadas como ‘oferta’ pelo editor. Coletâneas repulsivas, resquícios de saldos e desespero. Volumes raros, mas marcados por dedicatórias insalubres, angariados dos sebos. A variedade das edições comparam-se aos cheiros da mulheres, são imprescindíveis para o envolvimento amoroso, para que haja entrega, para que obriguem-me a soletrar palavras vadias ou soprar declarações de amor.

 

A geografia e o tempo são os meios pelos quais organizo os livros e as mulheres. Disponho-os em prateleiras de madeira clara, protegidas por portas de vidro para evitar a poeira da rua e as névoas da memória. Desenham-se em continentes, a partir dos mares do sul, até alcançarem o limiar do pólo norte, onde não estive porque é a última barreira para encontrar o amor, o que significará assumir responsabilidades pela mulher amada. Porque implica em descansar os olhos e cessar a busca pela plenitude proporcionada por um livro, pelo história demolidora que me fará repousar, afirmar que vim, vi e venci. Separo os livros e as mulheres por sub-regiões. As mulheres do deserto, que não pude saciar, os livros de monção, que encharcaram-me os sonhos. E o equador, a pontuar a minha existência, onde refugio-me para esgotar a solidão, para omitir a inquietude permanente do pensar, com suas mulheres levianas e leituras de clichês. E há os amores difíceis e os possíveis. As montanhas mágicas que obrigaram-me a esforços repetitivos para alcançá-los a eles, os cânones, e a elas, as musas.

 

Na caderneta verde, presente de aniversário de minha mãe, a relação de livros devorados. Na caderneta vermelha, prenda da primeira namorada, os nomes da mulheres. Livretos ao lado e obrigo-me a honestidade de reconhecer ter procurado nas minhas mulheres as personagens que amei. A sensualidade e a desfaçatez de Justine, do Durrel, trouxe-me Alexandra. A fidelidade e a força de Penélope levou-me à Inês. Quis adoçicar sem sucesso a firmeza de caráter de Fermina Daza, mas as lutas deixaram-me deliciosas memórias. Não fosse a loucura e a insacietude de Ema Bovary e eu não teria percebido a incomprenssão masculina para com as mulheres, agradeço-te Carolina. E houve a Morte, que através das Intermitências do Saramago, fez reemergir a paixão na figura de Irís. A Menina Má, do Vargas Llosa, refrescou-me a certeza de que as mulheres fazem o seu próprio caminho, não pertencem-me e acabam por deixar apenas uma réstia desordenada de palavras ríspidas e silêncios sobranceiros .   

 

Agora eu estou só e calmo. Há um romance que espera-me a nove séculos, escrito por uma mulher japonesa. Era ela a intelectual da corte e a amante do imperador. Do ventre dela brotou o descendente real e com as suas ideias e palavras pariu a literatura que tomou a forma do ‘primeiro romance’. E a angústia que me toma e paralisa vem dessa precariedade intrínseca de buscar o livro e a mulher em definitivo, o encontro incontornável.

 

“- Como está, meu senhor?

- E tu, como estás? Seja o que Allah quiser! Mas tu, minha querida, estiveste fora desde o romper do dia!... – disse-lhe o sayyed alteando a voz com uma certa acrimónia.

Sorrindo, Amina respondeu:

- Fui visitar as mesquitas de es-Sayyeda Zeinab e de el-Hussein e rezei por si e por nós todos!

Com o regresso de Amina voltara-lhe também um pouco de segurança e de paz e o homem sentiu que podia agora perguntar-lhe aquilo que queria sem qualquer embaraço:

- Parece-te justo deixares-me sozinho tanto tempo?!”

 

Trilogia do Cairo, O Açucareiro, Naguib Mahfouz

 



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Domingo, 13 de Julho de 2008
É fogo

“Lá não tem claro-escuro/ A luz é dura /A chapa é quente /Que futuro tem /Aquela gente toda /Perdido em ti / Eu ando em roda /É pau, é pedra /É fim de linha/ É lenha, é fogo, é foda”   (Subúrbio, Chico Buarque)

  

Lide
 
Eram 23 horas quando estoirou o incêndio no número 23 da Avenida da Liberdade, quarteirão do Elevador da Glória. Foram mobilizadas 30 viaturas dos bombeiros sapadores de Lisboa, duas dezenas de carros da polícia e mais de 100 homens. Cinquenta pessoas ficaram desalojadas e mais de 100 foram evacuadas de suas residências por medidas de precaução. Duzentos turistas obrigados a mudar de poiso. A Polícia Judiciária ainda não identificou as causas do fogo, mas há suspeita de crime.
 
A vizinha
 
Uma folha em branco na máquina de escrever. Thelonius Monk no toca-discos, uma taça de Dom Rafael (alentejano regional, a pisa pés com estágio em madeira), o abajour de 60 watts a iluminar dez metros quadrados na Baixa de Lisboa. Um silêncio imenso a latejar: sobre o quê escrever?
 
Resposta em bouquet: plástico a arder ou químico a sublimar. Resposta em forma: névoa branca a inundar o céu. Resposta em cor: fogo a tomar o edifício em frente, dois a esquerda do meu a olhar da escada de incêndio. Não um fogo lento, que permite o fôlego de uma última dúvida. Nada de fogo em partes, que faz temer perder o Norte. Nunca fogo em pedaços, que concede alternativas. Um fogo instantâneo, que ardia a partir dos alicerces e invadia os prédios vizinhos. Um fogo de desespero, não daqueles que faz duvidar do futuro, mas dos que põe em risco o presente. Avisa-se os colegas de casa. Duas ligações para emergência, sem resposta.
 
A jornalista
 
A jornalista reagiu. Calçou o ténis vermelho, confirmou que o bloco estava na bolsa (da série dos Museus, mosaicos ), também a carteira profissional, os cigarros e as canetas. Ligou para a Musa, porque é a agência do Estado, porque fica longe e custava a chegar e o motorista devia estar a tomar um café. Contactou os aliados, que há de ser deles a prioridade. Discou para os populares. Mas já não se fazem piquetes como antigamente, e não havia um estagiário inquieto junto ao telex.
 
O estado das coisas
 
Bombeiros, polícias e moradores enchiam as ruas. A área estava a ser isolada e o trânsito era interrompido na Avenida da Liberdade. Mangueiras jorravam água e o fogo crescia, emanava do concreto. Centenas de moradores, transeuntes e turistas postaram-se junto as faixas de isolamento. Deixaram seus telemóveis, câmaras fotográficas e filmadoras com o trabalho sujo de registar.Terminada a primeira ronda.
 
Na esquina de casa, em frente a tasca do Manel, a Beatriz pergunta em tom de alerta: “resgatastes o computador”? Volto à casa, escalo os três andares esbaforida. Em robe vermelho de inverno também a Dona Ana. “Sou velha e não estou para isso de ser evacuada, não posso ficar sozinha na rua a esta hora”. No tecto de vidro da cobertura estrelas cadentes, ou melhor, brasas infindas. Ligo para a Teresa, filha da Dona Ana.
 
Na mochila enfio a máquina de escrever, o toca-discos e o vídeo. Encontro um bombeiro no rés-do-chão, “resgatem a Dona Ana”. Grito para a Bia, “tens de fazer descer a velha”. O telefone apita, editor Rafael. Aquele que gosta de livros policiais, fumo de cachimbo e gabardina. “É assim, relatas-me o que se passa e eu escrevo”, orienta-me.
 
A narrativa
 
Bombeiros em telhados, a formar um triângulo equilátero em relação ao edifício em chamas,  descarregam água. Três carros com escada, posicionados em frente ao prédio, com sapadores nelas montados buscam aplacar a sede das chamas. Em vão, as explosões multiplicam-se, um bombeiro é atirado escada abaixo. “Quando isso aconteceu?” "Agora". Cinquenta moradores do número 21 foram evacuados. “Espera, há diversos hotéis e pensões no quarteirão, vou verificar o número de turistas. Liga-me em 10 minutos”.
 
A carteira de jornalista abre espaço na barreira policial na Calçada da Glória, adentro a Rua da Glória sob duas tempestades: brasas incessantes e água grossa. Suecos de malas nas mãos espreitam através do vidro do hall do Hotel Suisso Atlântico (HSA). Entro com dois polícias e oiço a ordem gritada: “Evacuar o prédio, desligar o gás e a energia, levem os pertences”.
 
A apuração
 
Precisava voltar à casa, nem o gás nem a electricidade haviam sido fechados. Mas antes era preciso encontrar o recepcionista e checar o número de hóspedes. Diz que não sabe. “Chuta, empiricismo”, replico! “Ok,  140”. Havia 30 hóspedes em cada uma das outras três pensões da rua. No hotel do quarteirão ao lado, que também foi esvaziado, outros 70.
 
O apurar
 
Atravesso os dez metros entre o hotel e a minha casa consciente de que é inútil proteger o cabelo, mas sem conseguir evitá-lo. Dois polícias seguram-me pelos braços, não querem deixar-me subir. Avanço, peço ajuda. Sou puxada e persisto. “Desliga o gás, a energia, já não sei onde ficam”. O varal dos aposentos do Mário em chamas, e as brasas invadem alegres minha casa. “Não, não tenho a chave. Quebra o vidro”. Um lençol bordado para aplacar os cacos. Apaga-se o fogo do varal, fecham-se as janelas, desliga-se o gás.
 
“Sim, Rafael, estou, o incêndio está a crescer”. O prédio vizinho ao meu, a direita, em chamas no primeiro andar. Todo o quarteirão, e os quarteirões vizinhos, foram evacuados. Inclusive a casa das putas, mas não, nenhuma saiu em trajes. Trezentos turistas sem poiso, a orientação é “virem-se”.
 
O medo
 
O meu quarto. Foi apenas um segundo. A peteceu-me que a mala castanha de fivela tivesse dentro de si os passaportes, dois fatos,  roupa íntima e dinheiro. Eu meteria na chapeleira, com pressa, uma necessaire com a escova de dentes e o pró-age, a caixa de jóias e, na última hora, o envelope amarelado com as cartas dos meus amantes recentes. Não havia tempo, nem a chapeleira ou cartas. Havia medo, houve um último olhar, como sobre a Ilha, naquela manhã de sol, na memória o contorno perfeito dos pólos Norte e Sul que orientavam o meu mundo. E não poderia haver saudade, recordei-me.
 
O Fecho
 
Últimas actualizações, para o fecho. O telhado e as paredes dos edifícios em chamas ruíram. Aumentou a área de isolamento, desligaram a energia de dois quarteirões. “Estamos a enviar o Clark , ele dá-te um toque”. A foca. O que fazer, a não ser jogar-se entre a multidão que fazia a vez de mar gelado?
 
Desalojada
 
Sentada, desemparada, acompanhada por uma cerveja no boteco (se calhar nunca venderam tanto como naquela madrugada de sete de julho). As fontes da Liberdade estão secas, toda a água canalizada para contrabalancear o fogo. O mundo a arder e a Beatriz no banco da praça, a roubar wireless e a papear no MSN. O que ela trazia na bolsa: passaporte, passagem de volta para o Brasil, cartas dos seus amores, desenhos dos seus alunos, a caixa em que transporta as sandes para o Colombo (o que Yung diria?). O Tiágo explica-se: “Desculpa-lá amor, as mulheres sempre exageram. Estava a ver o jogo, a tomar uma cerveja, a jogar conversa fora. Quando liguei na RTP percebi que era mesmo fogo”.
 
Da minha casa não sei nada, até então, 29 anos de praia, não tinha elaborado um plano B para o caso do meu mundinho pegar fogo. “Pois, vou para um hotel, tv a cabo e uísque. Amanhã ligo para a Ana, passo uns tempos lá. Compro duas calças na Zara e três t-shirts na Berska. A farda já está na Globe. Para semana fica pronto meu novo bilhete de identidade. Toda a minha agenda está no HP”. Pragmatismo de sobrevivente.
 
Doeu mesmo foi quando passou o polícia a perguntar: “desalojada”? Não foi a questão, nem a palavra. Foi a imagem. Os tipos num ginásio, com colchões de acampamento, cobertores finos, uma única frase “perdi tudo”. Desalojado faz pensar em Katrina, em tsunami, a BBC e a CNN moldaram o meu imaginário. Ao cabo eu deveria ir para o Cinema São Jorge. Encontro o Mário de calções, vindo da praia.
 

Um carteiraço, diria a galera! O do Mário de fiscal de obras da Câmara, o meu de jornalista. O polícia pediu que os mantivéssemos erguidos para passas. Nada no rés-do-chão, Clínica de Beleza impecável, Pensão da Pérola a brilhar, terceiro andar apagado. Entramos em casa com a água nos tornozelos.

 

Cenário: quatro da manhã, apartamento inundado, chuva de água e de fogos, bombeiros nos telhados vizinhos. Alívio, frescura, mais desamparo. Força, para tirar a água e evitar um curto circuito. As telhas e os fios arderam. Sem internet, sem energia, sem as investigadoras da Fox ‘curiosas, metódicas, decididas e ternas’. “Serenidade, para aceitar o quê não posso modificar; coragem para transformar o que é possível e sabedoria para discernir”.

 

Ressaca

 
Fui vender vestidos e fatos na própria segunda-feira, insone nos saldos. Mudei o escritório para a Liberdade, a roubar a rede. Depois chorei, a cinco minutos de abrir, por trás da cortina vermelha, a pisotear os sacos, a secar as lágrimas em seda. A Ana, a Paulino, arrastou-me e salvou-me no Cais. “Então, olha lá, isso da vida é sempre a abrir. Um dia de cada vez, és forte, resistes. Segue em frente, hoje e amanhã e depois e enquanto for preciso. Sabes quem és e aguenta-te! No mais, para alcançar a meta de hoje faltam-nos mil euros. Estamos aqui”.
 
E fui. E estou. Porque ser já são outros tantos. Sempre a abrir.   
 
“Where troubles melt like lemondrops”
(Somewhere over de rainbow, Harold Arlem)

 



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Segunda-feira, 23 de Junho de 2008
Procura-se rapariga esbelta

 

O Anúncio
 
“Empregada para o Estoril, dos 20 aos 50 anos, de absoluta confiança, pobre ou desempregada, livre e descomprometida, digna e meiga, esbelta e honesta, para serviços leves e domésticos e companhia mútua permanente com respeito mútuo, de preferência da província, simples e sem família, para casa de pessoa só, meiga e humana, saudável e responsável. Dá-se alimentação, dormida e 500 euros mensais e também se dão e se exigem referências, pedindo-se o favor de respostas apenas e só da rede fixa e só de quem reúna as condições, para 214844026, mas só a partir das 15 horas e, se não atender, por favor deixe mensagem pormenorizada, porque se trata de assunto absolutamente sério e, se o merecer, terá o seu futuro assegurado”*.
 
 
Vasco Dias, depois de passear o cão como é de costume e compromisso pela orla do Estoril, abriu o portão da vivenda pontualmente ás 17 horas. Para não fugir ao ritual, cutucou a porta com a bengala – objecto de adorno, e não de necessidade – antes de meter a chave. Poisou o chapéu de palha, sacou o lenço branco com suas iniciais do bolso esquerdo e recompôs o pescoço e a cabeça, em bicas no verão lusitano. Abriu as persianas, transbordou uma taça de Alvarinho, ligou a música, Rachmaninov, agarrou nas ‘Memória de minhas putas tristes’, do Gabo, e fechou os olhos sobre a poltrona de riscas. Completara 68 anos, em 13 de junho, e neste horário costumava dormitar, embalado pelas lembranças das noites de amor louco com adolescentes virgens. Um ruído constante o retirou da semi-dormência em que se encontrava. Os apitos insalubres eram da caixa postal, havia notícias.
 
Sofia Leonor
 
“Olá, estou, sim? Bem, estou a ver, devo deixar uma mensagem. Chamo-me Sofia Leonor. Estou com 37 anos, e deixa-me contente encontrar um anúncio em que se aceita mulheres com mais de 30 anos. Nasci em Azinhaga e fui deixada aos três meses na roda dos enjeitados. Não estou a trabalhar, não senhor. Sinto-me bastante livre, aliás, os tempos do Salazar já lá vão e acho porreiro este senhor primeiro-ministro. Cá na pensão em que vivo não há sala de leitura, nem dicionários, e, sinto dizer-lhe, não posso afirmar que seja esbelta. Mas se este é um dos pré-requisitos, calhava bem que eu o fosse. Gosto de actividades domésticas, e espero que o senhor tenha um ferro a vapor, caso contrário, as tarefas não serão assim tão leves, pois tenho sinais de fibromialgia (só o conto para que perceba que sou de facto honesta). É bom que o senhor seja uma ‘pessoa humana’, em contrapartida digo-lhe que sou especialista em arroz doce. Por fim, o meu noivo, já lá vão 15 anos desde que abandonou-me, gostava muito dos meus broches, diz que eles são dignos, como o senhor requer. Fico esperançosa com a promessa de futuro assessugurado, mas é o presente que me faz telefonar-lhe. Dou referências completas.”
 
Georgina Yarova
 
“Ucraniana. Há quatro anos em Lisboa, a leccionar matemática numa escola do Estado. Estou com 43 anos. Tenho um metro e 74 centímetros, 84 de busto, 74 de cintura, 90 de quadril e peso 60 quilos. Perdoe-me a obssessão com os números. Os meus cabelos são naturalmente loiros e o mesmo passa-se com as sobrancelhas. Gosto dos batons vermelhos e de saias. Sei andar de saltos por Lisboa e comer as sardinhas com precisão. Não entendo de vinhos, e não possuo um decantador, mas gosto muito do Tolstói e do Dostoyevsky. Fico apreensiva no Metro, pois sempre suponho que alguém pode empurrar-me pelos trilhos, e não desejo um final Karenina. As condições apresentadas são em absoluto legítimas. Contudo, preocupa-me o senhor não fazer questionamentos quanto aos paradigmas ideológicos. Sou adepta convicta da linha chinesa, em que pesem os percalços dos tanques sobre os adolescentes, dos brinquedos plásticos, do filho único e do percurso da chama olímpica. Não há dúvidas de que preencho os requisitos, e de que aguardo o seu gentil contacto em momento propício”.
 
Inês do Carmo
 
“Caro senhor, espero que esteja a ter uma tarde auspiciosa. Envio-lhe a saúde e o bem-estar que merece, como nas tradicionais saudações das cartas das heroínas gregas. Acabo de perfazer os 49 anos, batizada e crismada na Sé de Évora (a mesma em que casou-se nesta semana uma princesa européia). Pois, tive pai e mãe, sim senhor, mas abandonaram-me quando fugi para Lisboa para casar com um polícia lotado no Rossio, o José das Dores. Só eu sei o sofrimento que ele causou-me, mas não o quero maçar. Deus foi sábio quando o levou, há nove anos. Tenho um filho, mas ele já vive na Alemanha para aí dez anos. Estudou farmácia e está bem colocado. Liga-me apenas no Natal e no dia dos meus anos, como estes coincidem, não há com o que se ralar. Tenho uma saúde de ferro, as ancas largas de uma boa reprodutora e os braços fortes, acostumados a lidar com as roupas brancas. Isso que o senhor fala da companhia mútua e permanente é muito importante. Sou uma especialista em paciência, não fico intimidada com os ataques de raiva, sei jogar cartas, e sou viciada em quebra-cabeças. Se o senhor ceder a alimentação, melhor, mas quem há de fazer o cardápio sou eu. Bifanas nas segundas-feiras, bacalhau nas terças, cozido à portuguesa nas quartas, quintas arroz de polvo, sexta omeletas, sábados de verão sardinhas e no inverno entremeadas. Nos domingos deixo-o escolher. Tenho uma máquina de moer café e posso preparar-lhe o banho. Quanto aos 500 euros, não são nada obrigatórios, pois o das Dores deixou-me uma pensão, e cá arranjo-me. Mas, como é para dormir, confesso-lhe, não tenho referências”.
 
Maria Madalena
 
"Salve meu rei! Sou de Xique-Xique, é claro que você não sabe onde fica, mas basta procurar no Google Maps! O legítimo interior da Bahia. Aos 15 anos resolvi mudar os ares, e parti para Salvador. E não há nada como o Pelourinho para matar a sede de mundo e  a ânsia por acarajé quente. O mercado da orla - com aqueles subterrâneos onde viviam os escravos, de quem sou filha - é para os sabores da cachaça e os turistas, tão tolos, enganam-se com qualquer rendinha! Não houve jeito não, fui à vida, sem apliques, porque o meu cabelo é mesmo longo e sedoso e a minha pele está bronzeada em qualquer estação. Depois surgiu aquele tipo, perdi o tino, beijei-o na boca e soletrei que o amava nos meus lençóis de algodão. O Mateus, como o apóstolo, porque alguém havia de dizer e fazer o que é certo nessa família, enviei para Xique-Xique, aos cuidados da minha mãe, aos nove meses, logo que deixou o peito. Estou aqui com os portugas desde há dois anos. Claro que tenho uns mal-entendidos com os tipos da imigração, mas os meus amigos da bola, com quem vou para Maiorca, sempre dão um jeito na coisa. Estou mesmo afim de assentar as chuteiras, como já comprei a casinha no interior e sou religiosa na mensalidade do plano de reforma, os 500 euros e o tal do ‘assegurado’ parecem-me promissores. Sou responsável sim senhor, vixe Maria! Posso mostrar os exames e fique tranquilo. Não tenho as referências, meu rei, que o meu serviço é do tipo confidencial. Estou com 25 anos, sou filha de Ógum, resistente como o ferro, do signo de peixes, por isso atravesso os oceanos, e afilhada de Tétis, daí os meus encantos e o calcanhar sensível. Pode chamar-me de Madá.”
 
Vasco agarrou no bloco de anotações e na caneta verde. Retrocedeu as mensagens para tomar notas e amealhar ideias. A sugestão do anúncio havia sido da esposa, e afinal resultava. O corpo relaxou e a cabeça começou a trabalhar, tinha material para a crónica da semana.
 
* Anúncio publicado na segunda-feira, de uma semana qualquer, no jornal Correio da Manhã. Negritada a primeira palavra, com a altura de 6,5 centímetros e 3,2 de largura, sob o título de ‘Outros’ na sub-secção ‘Procura-se’.
 


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Domingo, 25 de Maio de 2008
A inteireza de um domingo

 

“The beauty of the days gone by/ It brings a longing to my soul/ To contemplate my own true self/ And keep me young as I grow old”. Van Morrison
 
“Isso de sermos inteiros não é para os seres humanos”, comentou Saramago enquanto revisitava a mostra sobre sua própria vida, ‘A consistência dos sonhos’. Referia-se a outro Mestre, que nos disse adeus com um lenço branco e deixou-nos, entre milhares de signos, as seguintes palavras: “Para ser grande/ sê inteiro/ Põe tudo que és no mínimo que fazes”. O escritor acompanhava o cineasta Fernando Meirelles, que saudava “a delícia do humor de Saramago”.
 
Era manhã de domingo e o sol insinuava-se entre os telhados de Lisboa.  No Palácio da Ajuda, em razão dos acasos que compõe a vida, descobriu uma outra jornalista. A gaja confessou-se ‘ansiosa’ pela dita agenda – daquelas ansiedades que não se fazem angústia, o tipo de agonia que nos persegue no curso primário, quando estão para reiniciar as aulas. Chegou no jornal quando as luzes ainda faziam-se sombras e os calhamaços diários estavam ausentes das bancadas. Brindou o dia com um café, perturbou a secretaria e o fotógrafo: ‘sem dúvida estamos atrasados’.
 
Aportou no jardim do museu no mesmo instante em que José e Pilar, um agouro que só os brancos mais pretos saúdam. Medo e satisfação rondavam, e mantinha-se alerta na busca de usar os cinco sentidos, e aquele outro que Kapucinski recomenda aos repórteres: pensar. Sentia-se um bocado surda, e não percebia uma palavra do que diziam os que a circundavam, a incluir Saramago e Meirelles.
 
Até então era apenas prólogo, mais do mesmo e saudações. A visita teve direito a guia, Marta Pacheco – omite-se o Pinto a pedido da própria – deu início a marcha às 11:20, com explicações claras através das artérias da exposição. E foi então que apareceu a jornalista.
 
Avançou nos calcanhares e anotava cada suspiro e trejeito da dupla ‘cega’. Os escritos nas t-shirts dos produtores do making-off de Blindness, os comentários da directora do museu, as palavras da Marta Pacheco.
 
Pilar vestia saia bege, meias floridas em cinzento e um casaco rosa antigo. Diligente a tirar fotos dos leitores com o autor, aqueles arrastavam-se atrás da comitiva. Pilar – jornalista, tradutora, esposa, senhora e viúva do José, termo do próprio, que confirma seu humor – mesclava beijos no pescoço do esposo com doçura de detalhes. “Nesta foto (os dois a dormitar, atirados em sofás na casa de Lanzarote e cobertos por jornais) estávamos afogados pelas notícias, exaustos pela maratona do Nobel”, explica a dama.
 
Ele visitava esta síntese de vida como se de outra pessoa se tratasse. Vislumbrava suas memórias como que perplexo com o que se passou nos últimos 85 anos, como se lançasse um novo, inquiridor?, olhar sobre si a partir das imagens dos jornais, das fotografias, das folhas de agendas antigas (não se passou nada em 03 de fevereiro de 1979, se calhar porque era sábado). Divertia-se consigo mesmo, contava histórias de objectos – o cavalo de pano, presente de uma leitora. Digeria os enganos “essa mesa está invertida”, a comentar a recriação de seu escritório. Reclamava das inoperâncias: “então, os televisores estão parados por quê?” E Saramago fazia-se inédito na forma dos poemas que não seriam publicados não fosse a mostra, recriava-se em forma de gente e de literatura. “O homem diz que sabe o caminho/ Mas não o acrediteis porque o homem não sabe o caminho”.
 
A jornalista seguia. A atazanar os outros repórteres, a confirmar o que não ouvia ou não via bem. Afinal, a tal da Agência iria publicar em 45 minutos, as declarações da musa, bem, são como ‘oráculos’. E ter de explicar-se mais tarde soa mal para os estagiários. Teve tempo para decepcionar-se com a medalha do prémio Nobel, por retratar o próprio Nobel, o óbvio que surpreende os principiantes.
 
E veio a colectiva. A altura obrigou-a a manter-se bem a frente, em incontornável visibilidade. O flashback que a perpassava: recortes em que ouve, vê ou lê os repórteres com suas perguntas parvas. A tomava a certeza de que o vacilo era inevitável. ‘Se calhar os clichês comportam a profissão’, consolava-se.
 
Disparou o rol de perguntas Nóbeis. Nada de quê, qual lugar, quem ou porquê (filme, exposição, Meirelles e Ensaio sobre a cegueira). Coisas pertinentes, género: as declarações dos estrangeiros; a festa das brochuras; as moças académicas. E justo na hora que a tal ia a fazer suas perguntas retóricas a assessora quis encerrar a conferência. Precipitou-se, com o sotaque de canela, e questionou sobre o filme e a literatura, e os encontros e as perdas que estes proporcionam. Não bem nesta ordem, nem desta forma. Mas de um modo que é incapaz de lembrar a não ser pelas anotações. Perguntas enviadas para o cineasta.
 
Saramago quis completar, e a jornalista era incapaz de usufruir dos olhos dele a responderem-lhe em directo, a dizerem o que pensava e como a citação mencionada contextualizava-se. A jornalista não permitia que a leitora, a amante da obra, descontraísse e olhasse até se fartar para o escritor. Para os ombros curvados, para os caixilhos dos óculos, para as mãos suaves poisadas nos joelhos de pernas cruzadas, para a magreza do corpo e para a gordura da literariedade. A jornalista não permitia ismicuir-se aos olhos húmidos e a lucidez das ideias. Negava espaço para aperceber-se e conectar-se à beleza das palavras, a sua relação com o passado e o futuro do que havia lido, sentido e, porque não, vivido. Apenas anotava, e fugia os olhos entre o homem e o papel, e conectava imagens e textos e críticas. Ah, a jornalista. Fez-se real nessa manhã de domingo, com clichês e idiossincrasias, com misérias públicas e privadas, a sonhar tudo e a não ser nada.
 
A ‘tal’ voltou derrotada para a redacção. O editor disse que era ‘Abre’ – palavra mágica para jornalistas e ladrões, desde o tempo de Alibabá e das estradas romanas. Mas não houve o mesmo impacto, era mais uma peça para embrulhar as sardinhas, que Junho promete roliças.
 
Epílogo
 
O ponto final veio numa sexta-feira. As tais das batatas, aquelas que são para os vencedores. Em ordem cronológica. Ano Internacional da Batata, segundo resolução da FAO (Organização para a Alimentação e para a Agricultura). Pensou: crianças a comer batatas! Abordou a escola, que topou. Foi encaminhada para a Direcção Regional de Educação de Lisboa e daí para a assessoria da ministra deu-se um telefonema. “Por que tal escola e por que falar primeiro com a estabelecimento e não com o ministério? A senhora não encontra-se na relação dos jornalistas portugueses, por quê? Por que o seu email não é o do Jornal?” Tudo respondido, encaminhada para o agrupamento escolar. Daí volta para a directora da escola. “Temos 287 alunos, faça os avisos em forma de pedido para os pais”. Seguiu-se uma crise de ciático da professora. Restava esperar que calhasse a batata no cardápio. Justo os três meses em que estagiou no maior diário do país. A partida e o ponto final, um viva às batatas! 
 
O dito popular afirma: ‘deus escreve certo por linhas tortas’. Se calhar deus é jornalista. Vejamos as evidências: primeiro fez-se o verbo; diz que deus recebe todas as ligações, mas atende apenas um par de preces; o mundo é uma mescla quotidiana de trajédia e esperança; e, por fim, deus é proletário e concedeu o livre arbítrio (em que pesem as divergências sobre seu uso). No mais, o planeta é diário. Ao cabo, resta-nos a impossibilidade de sermos inteiros.
 
“In my solitude/ I'm praying/ Dear Lord above/ Send back my love”. Duke Ellington


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Segunda-feira, 5 de Maio de 2008
É Maio

Aterrou em Paris em maio de 1968. Ludibriou a tropa - estava na Força Aérea Portuguesa e nas fotos a preto e branco não consegue esconder um sorriso zombeteiro dos que ignoram a rigidez – e atravessou os Piréneus de boléia.

 

O Fernando. Mal chegou no Quartier Latin e logo pôs-se a arrancar os paralelepípedos. “Quanto mais faço amor mais tenho vontade de fazer a revolução*”, pichava nos muros. Não se tratava de uma angústia ou reivindicação pontual. Eram anos de cóleras, décadas de descrenças e promessas vãs do ‘establishment’ .

 

Tratava-se do brotar da consciência, do nascer do parâmetro, o olhar aguçava-se a e as injustiças não eram ilustrações. E quando as ideias explodem, não há ‘lutas específicas’, ‘discursos progressistas’, ‘propostas amadurecidas pelo colectivo’ ou ‘questões de ordem’. É mesmo uma balbúrdia, um alvoroço interno que impede o vislumbrar exacto do que se quer e de onde se vai. É o ‘vamos então’, o ‘deixa disso’, o ‘agora’, o ‘já está’. O Maio de 68 é tudo isso, e mais o que os teóricos das aparências e os resenhistas críticos quiserem.

 

Lá estava o Fernando, com o seu primeiro jeans e camisa de botão. Porque não era época de t-shirts engajadas em etiquetas DKNY, que usam os tipos que hoje assistem às passeatas dos cafés e nada percebem dos vinhos. Namorou com a Catherine e  partiu para Estocolmo, porque insatifesito com a vitória do De Gaulle, porque o mundo gira e as bichas têm de andar.

 

Exilado político e responsável pelo transporte interno de medicamentos. Trançava sonhos de viagens pelos corredores do Hospital Central de Estocolmo – sim, lá todos os corredores são infindos e largos.

 

Foi num show do Bob Marley, devia ser primavera, até porque soa bem para o contexto e para a história, que o Fernando conheceu a Marisa. “I wanna love you and treat you right/ I wanna love you every day and every night/ We'll be together with a roof right over our heads/ We'll share the shelter of my single bed/ We'll share the same room, yeah! - for Jah provide the bread**”.

 

Divagaram em pensamentos libertários e deliciaram-se em corpos feitos para a insaciedade, para o limite ou a falta dele, para o oculto de que é composto todo o homem e mulher. Partiram para a Indía. O Fernando e a Marisa, em busca do intrínseco que nos faz gente, do inusitado, que se não for almejado cessa à vida. Não era Maio, e já se estava na década de 70, mas eram eles os eternos protagonistas de 68.

 

Boléias turcas, travessias pelo Mediterrâneo em veleiros de contrabando grego. Ópio no Irão e um comboio ‘Darjeeling’ na Indía. Em Rawalpindi descobriram-se sem dinheiro ou passaporte. O grande discurso da Marisa, num inglês sem ranhuras, indignada com o roubo. Desceram o Ganges de navio. Contaram as estrelas alcançando o incrível número de um milhão duzentas e trinta e três mil e 557, todas mapeadas no que hoje são sobras de memória.

 

Em Nova Déli, sem passaporte, o Fernando exilado político-desertor pôs-se a caminho da embaixada portuguesa, a pisar com cuidado os paralelepípedos. E o gajo é um tipo de sorte.

 

Corta, break, tela negra.

 

Em cena o Capitão Artur Ribeiro Gomes. Minha primeira matéria em Lisboa.  O ex-piloto da Força Aérea Portuguesa (FAP) exilou-se em 1972 na Venezuela, por negar-se a “escrever discursos fascistas e coptar jovens para o regime”. Desde então é considerado desertor pela FAP. Há 34 anos luta para ser reintegrado, o que significaria “o reconhecimento de que o exílio deu-se por motivos políticos”. Desde julho de 2007 está em greve de fome, como “último recurso” para restabelecer a “verdade”, afirma.

 

Um take e ele está em casa, um condomínio decadente no Barreiro, recheado de livros e fotos e memórias feitas de palavras que compartilha comigo. Em 1975 o ex-militar redige da Venezuela uma carta para o Ministério dos Negócios Estrangeiros a solicitar o visto irrestrito para os exilados políticos portugueses, até então limitado para o retorno a pátria.

 

Em resposta a missiva do Movimento Democrático para a Libertação de Portugal e das Colónias, o ministério emite circulares para as suas embaixadas portuguesas em todo o mundo, a autorizar a emissão de passaportes sem qualquer óbice para os exilados políticos.

 

E num arquivo público de Nova Déli, um bocado corroído pelas traças, com um cheiro de mofo, numa caixa escura de um corredor estreito com estantes de metal enferrujado, um pouco ‘O Processo’, haverá uma foto do Fernando com o embaixador português, a brindar a emissão do passaporte. Não, a emissão de uma nove era, uma era feita de Maios de 68.

 

Sempre Maio

 

O Capitão disse “é a verdade ou a morte”. Ouvi com serenidade o gozo dos colegas, aceitei com parcimónia os conselhos sobre ser ‘dura’. A chefia, que diz-se de ‘direita’, apostou na história. E o capitão falou mais um bocado.

 

Nem o povo nem a elite confirmam, porque abala aquele ‘status quo’ que o Maio de 68 tegiversou.  O Capitão Artur esteve com os chefes maiores e foi atendido pelo mesmo hospital que o desertou. Auspícios da reintegração à Força Aérea?!

 

Nasci em 1979, mas sou filha de 1968. Parida numa manhã de sol com uma frescura rescaldada de onze de Maio. Havia barricadas nas ruas e jacarandás em flor, e os jovens iam e vinham pelas esquinas. O Jean distribuía comunicados escritos pela Simone e por acompanharem o pulsar das ideias e do tempo, dele se apropiaram. E não restou um sonho, mas sim um contínuo, não assassinaram o “I have a dream...”.

 

É doce e alentador saber-me filha de todos os Maios. Filha do músico, da sutileza propiciada pela metáfora que ‘arte’ faz do mundo. Oriunda da revolução e das ideologias da qual o Capitão faz parte. Eu sou o próprio Maio. Mulher, latina, jornalista. Imigrante, com palavras indecedentes, um quarto na Glória, um vestido no Colombo e um domingo na companhia dos bombeiros.

 

O Capitão sente “que pode haver justiça no mundo, que o seu caso não pode significar apenas a resolução do problema de um indivíduo, mas um novo paradigma para a democracia”. O Fernando deparou-se com o destino, “como se mares do sul me houvessem oferecido ilhas maravilhosas por descobrir, seria então a arte conseguida, o repouso intelectual do meu ser***”. E eu estou cá, nas barricadas, a arrancar os paralelepípedos em Maio.

 

“Agora era ele o Senhor do Mundo, por este viajando e desfrutando a bel-prazer suas belezas, maravilhas e delícias, como se o Mundo não tivesse outro propósito, senão ser um imenso parque de diversões colocado à sua disposição. Na sua arrogante condição de recém-adulto pensava que sim, que sabia tudo. Pelo menos o que lhe interessava. Tudo estava definido e claro, apesar das confusões metafísicas, ideológicas, políticas e sociais que fervilhavam na sua mente, e que tentava absorver como um cocktail místico e exótico que anunciava a nova Era de Aquário. Por acaso seu signo”.

 

Fernando Jorge, in ‘As fatias douradas sem metafísica’

 

*Frase escrita dos muros de Paris em Maio de 1968.

** I wanna love, Bob Marley.

*** Fernando Pessoa, por Bernardo Soares, Livro do Desassossego.

 

 



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Sábado, 26 de Abril de 2008
A ver memória

- Vera, memórias genuínas, fala-me das tuas recordações mais antigas. - Imperou Leonor, a ajeitar os óculos e a pousar os braços gentilmente na poltrona alta de pele castanha.

 

- Sinto-me miserável, algo como defenestrada, e pedes-me ‘memórias genuínas’.

 

Despiu as sandálias, deixou o corpo escorrergar para a esquerda e a cabeça descansar nas mãos em forma de concha, cruzou os pés com displicência no braço oposto do grande sofá rústico e pôs-se a admirar o formato e a cor das unhas dos pés, rubras. Apetecia-lhe um cigarro, mas a indisciplina inesperada de deitar-se era o bastante para esta sessão.

 

“Tenho lembranças uterinas. Memórias de um tempo em que era possível conhecer todo o mundo com pequenas braçadas. De uma época em que debatia-me, ansiosa, para romper as paredes da minha casa. Nasci numa noite quente de 31 de dezembro. Gosto de pensar que sou uma entre os filhos da meia-noite. A minha especialidade é desvendar os pensamentos alheios antes destes materializarem-se e assim controlar um pouco o universo, fazer com que ele gire num ritmo mais próximo das minhas inquietudes.

 

Recordo-me de uma tarde na piscina, devia ter por volta dos três anos, em que desandei do tanque infantil e atirei-me na piscina olímpica em pleno treino dos idosos. Mal toquei os pés no fundo e o meu corpo leve devolveu-me para a superfície. Foi no mesmo ano em que por excesso de confiança sofri um princípio de afogamento na lagoa, aquela em que se chega pela beira do mar. Fui salva pela deusa Ísis, que hoje tem guardapos de linho branco e outro gigantesco namorado alemão, que também fala espanhol e gosta de filmes de guerra.

 

O álbum da Mónica com auto-colantes da Turma veio nessa época, numa surpresa tremenda, a brotar nos recônditos mais inesperados da velha casa de madeira. Surgiam nos armários da cozinha, na caixa dos brinquedos, faziam a vez de flores nos canteiros do jardim, e creio que se voltar lá ainda encontrarei alguns no velho caixote das ferramentas. Com eles adquiri a ‘síndroma das surpresas’, e é difícil aturar os dias em que não se passa nada. Os dias em que não aprendo palavras novas, na minha ou em outras línguas, um termo que me arrebate, que me faça duvidar, que me provoque vertigens e leve-me por outras palavras e frases até a exaustão de uma nova ideia.

 

E foi então que deparei-me com a negociação. Ofereci-me para abandonar a chupeta em troca de uma Susie. Nunca rompe-se uma acordo, aprenderia mais tarde. Foi aí que nasceram as insónias, as dúvidas, a indignação, o medo de nunca recuperar-me daquele amor perdido. Sete longas noites em que lamentei a precipitação do fim, a loucura das palavras já pronunciadas, o medo de não haver um reencontro afectivo, uma cumplicidade tão grande quanto a que eu tinha com a chucha bege (sempre fui blasé). Ao fim do teste imposto pela mãe, a ‘verificar se és capaz’, uma Susie morena, de longos e sedosos cabelos, com um quarto azul (cama, armário e penteadeira). Na época não ocorreu-me o porque do Bob não ter vindo junto.

 

Impossível recordar-me do nome dele, mas era descendente de indíos, com cabelos compridos e repicados, modernos para a época, avesso aos miúdos da classe. Eu pegava-o pela mão, sentava-o a meu lado e desenhávamos e misturávamos os lanches. Aguardava como sentinela que os pais o viessem buscar, a proteger-nos no interior da grade de camélias do portão. Lá está ele, numa foto dependurada no vão da escada, rosto matreiro, meio de perfil, meio de esguelha, a ganhar coragem para o futuro.

Houve um dia que não, não pude acompanhá-lo no retorno do intervalo. Tinha a urgência de apreender a andar de balanço. O dia estava cinza, fazia frio, e a Irmã, em pleno hábito, tenta empurrar-me. Pedi que parasse, oras, ‘preciso ganhar a técnica’, refilei. ‘Como anda-se de (‘no’) balanço?’ Não aceitava o facto das minhas pernas serem curtas em excesso, o facto definitivo de que era imprescindível um empurrão inicial. A tarde passou até aperceber-me do truque. Segurava-me no pilar do balanço, ainda em pé, com uma mão agarrava nas correntes, com a outra impulsionava a estaca de ferro da base. A esses movimentos devia-se coordenar a subida para o balanço. A Irmã não queria que o meu vestido azul, com um girassol no peito, subisse, mas eram muitas exigências! Saltei para o balanço e depois bastou manter o ritmado das pernas, logo podia descair o corpo para trás e manter o olhar no céu. Sim, a Terra mudou sua perspectiva, e para sempre seria possível olhá-la por outros ângulos.

 

Nessa época eu ainda não sabia ler, nem que me tornaria numa linguista, professora primária, mas linguista, a ser mestre e escrava do alemão e do inglês. A amar Eliot e Kafka. Nos idos tempos encantava-me com os contos tradicionais: Capuchinho Vermelho, Branca de Neve e Bela Adormecida. Era incapaz de conceber a morte do lobo, e alertava o pai: “Não te esqueças que não gosto quando o lobo morre, dê um jeito para que ele safe-se. E lembra-te, ontem ele foi mandado para a colónia de férias, anteontem deportado para a África...”. Estava perplexa e enfeitiçada pela Rainha Má. Afinal, era preciso ser-se muito bem resolvida para admitir que estava farta de criar a filha adolescente do rei. Ter um ego muito bem construído para sentir-se bela a cada manhã. E as ilustrações? Sempre foram muito mais caprichadas do que as da rebelde Branca. Que culpa tinha a Rainha da princesa estar farta dos rígidos horários do castelo? Quanto a Bela, história perfeita, a parte do beijo irreparável... Cem anos mais tarde descobriria a versão da Anne Rice,  O despertar da Bela Adormecida: ‘Retirou a espada (o princípe) com a qual cortara as roseiras do exterior , e delicadamente fez deslizar a lâmina entre os seios dela, rompendo facilmente o tecido velho’.

 

A nossa casa era já de alvenaria quando fui capaz de formar, reproduzir e compreender a primeira palavra. Deu-se inesperadamente, num volume casual da enciclopédia, que habitava os recônditos da casa de banho. A partir de então as letras tornaram-se uma formação contínua, um desvendar constante, vieram com certa brusquidão, de um modo incessante, tal como as tempestades, mas não deixava de repetir a primeira palavra, a sua unicidade: pátria.

 

Como prémio por ter aprendido a ler, ‘exigi’ que deixassem-me ir a pé e sozinha para o jardim. Foi uma semana de guerras, discussões, em que eu jamais deixei de comer por nunca ter sido  dada às dietas. Prometia não responder nem argumentar meses a fio se deixassem-me ir só a escola. Pai e mãe seguiram-me pelo binóculo, através da janela da casa que dominava a colina. Eu olhava de seguida para trás, pronta para uma briga se estivessem a seguir-me. “Romperam o acordo o coisa e tal, isso não foi o combinado e deixa lá que vão ter de aguentar-me!” Mas não se passou nada. Habitou-me a sensação de conquista, um sabor de conhecer e de descobrir caminhos que ainda persegue-me. Estou sempre a ir para a ‘escolinha’, mesmo quando sangro os mares e subo vulcões e solitariamente como rãs.

 

A escola primária, a Santa Catarina. Eu de camisola branca, saia xadrez até o joelho, com uma mala lilás de fivela dourada. Irmã Teresinha a professora. Menti logo na primeira pergunta. “Quem sabe rezar a Ave-Maria?” Sentada na terceira fila em relação a janela, quarta a partir do quadro preto, mantive a mão poisada no ombro quando apercebi-me de que seria a única criatura a não conhecer tão essencial oração. Levantei o braço, com o dedo bem apontado, um misto de implorar clemência pela blasfémia e pedir luz para recitar a prece. O André já estava lá, e eu não sabia que deixaria de tornar-me a melhor aluna do primário por ter interrompido um jogo de futebol para entregar-lhe uma carta de amor.”

 

A voz que interrompeu-a não era a Dr. Hogarth a aconselhar uma visita ao labirinto de Cefalû, em Creta. Era simplesmente a voz da Leonor, que não permite chamarem-lhe Dra. “Por hoje é o bastante”.

 

Vera calçou as sandálias, sentia os pés a flutuar e a musculatura de nadadora ereta. Tudo o que nela havia de miserável havia desvanecido-se. Ganhou o abraço caloroso, certeiro de entendimento, e partiu para fazer nascer novos dias de memórias uterinas.

 

“Bambeia
Cambaleia
É dura na queda
Custa a cair em si
Largou família
Bebeu veneno
E vai morrer de rir

Vagueia
Devaneia
Já apanhou à beça
Mas para quem sabe olhar
A flor também é
Ferida aberta
E não se vê chorar”

 

Chico Buarque

 

 

 

 

 

 

 

 



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